A falibilidade dos pontos cardeais

“Hoje em dia, você avisa seu telefone de onde quer chegar, deixa tudo por conta do GPS ou do Waze e fica sossegado gozando a paisagem. Só se perde quem quer”

por Menalton Braff, CartaCapital

Em tempos de Waze, não creio que alguém ainda se perca, a não ser de amores, de raiva, sentimentos que o aplicativo não aprendeu a captar

Não sou nenhum casmurro e muito menos dom, mas, como ele, moro longe e saio pouco. Não é qualquer coisa que me arranca de casa. Mas era uma solenidade de posse em uma Academia de Letras e isto faz parte de minhas obrigações, ou não faz, o que sei é que mantenho relações de amizade com muita gente que, como eu, gosta muito de ficar ficcionando a vida, então lá fui eu procurar a rua Thomaz Nogueira Gaia, onde fica a sede do Centro Médico, gentilmente cedida para o evento.

Um amigo da cidade me deu a dica: Chegando pela Francisco Junqueira, entre à esquerda no farol da rua Chile e suba direto porque a Thomaz Nogueira Gaia é uma travessa desta rua.  Vejam só que história mais antiga. Hoje em dia, você anota o endereço, avisa seu telefone de onde quer chegar e deixa tudo por conta do GPS ou do Waze e fica sossegado gozando a paisagem. Só se perde quem quer.

Segui as instruções de meu amigo, entrei pela rua Chile (acho que era a Chile, pois não vi placas) e subi. Era noite e algumas árvores projetavam sombras nas esquinas e não me era possível saber se havia placa de rua ou não. Fui subindo. Com muita atenção e um pouco de medo, mas não parei. Depois de alguns quarteirões, não contei quantos, me vi numa avenida bem iluminada, mas deserta, e a rua Chile terminava ali.

Parei, liguei o celular para uma possível reprogramação de meu itinerário. Onde você está?, perguntou-me o amigo. Olhei para os lados, para cima, e nada. Nem os postes, tampouco os muros, ninguém para me ajudar. Estou numa avenida larga, foi a resposta estúpida da qual me arrependi imediatamente, mesmo antes de ouvir a gargalhada na outra ponta da linha.

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Resumindo a história: não havia placas (pelo menos visíveis) na rua Chile indicando o lugar que eu procurava. Não havia placas na avenida para que pudesse saber em que lugar do mundo eu estava.

Algumas cidades precisam sinalizar melhor suas ruas, porque nem todos os motoristas são da terra. Foi a conclusão a que cheguei depois de me sentir perdido por perto de uma hora.

Hoje não creio que alguém ainda se perca, a não ser de amores, de raiva, de fome. Sim, porque existem sentimentos e sensações que o Waze não aprendeu a captar. Mas ele vai chegar lá, e não duvido de que nos liberte de todos esses sentimentos humanos.

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