A incrível história do homem que fez amor com uma árvore

Por Eberth Vêncio, Revista Bula

Tinha acabado de chover. De tal sorte que pássaros cantavam e zuniam no céu com uma disposição acima da média. Eu também me sentia muito bem, obrigado, embora passasse por dias bicudos e não pudesse voar. Era mesmo uma pena que Deus não desse asas às cobras. Eu fugiria. Então, fui serpenteando pela relva, distraído, cabisbaixo e diminuído dentro da escala animal, quando me deparei com uma cena deveras inusitada, a qual preciso descrever aqui, em minúcias, mas, sem exageros, para que a história não passe por mentirosa, a invenção de um aloprado: um homem abraçava uma árvore.

Já tinha ouvido falar de pessoas que conversavam com árvores, de outros que se enforcavam nelas, mas, aquilo era diferente, surreal. Mais um louco dentre tantos a vagarem por aí? Eu não conhecia o sujeito. Também não saberia lhes dizer que espécie de árvore era aquela. Sempre fui uma criatura urbanoide, um ser humano criado em cativeiro, ou melhor, em apartamento, que até os quinze anos só conhecia vaca pelas fotos de catálogo dos açougue e tinha aprendido a gatinhar no asfalto escaldante das metrópoles. Escondi-me atrás de um arbusto e me acocorei para melhor assistir ao desenlace daquilo que, à primeira vista, parecia mais um desajustado fazendo das suas sandices.

Como eu já disse, a cantilena da passarinhada ecoava pelo vale, deixando a paisagem viva e agitada. Havia muito capim, raras árvores, dezenas de boizinhos pastando e dois intrusos: eu e o tal que se abarcava a uma árvore robusta, cujo tronco não era possível enlaçar por inteiro. A cena remetia a uma criancinha agarrada às pernas de um adulto. A árvore era vistosa, encantadora, ornada com flores de tom lilás, uma belezura mesmo.

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De repente, o estranho começou a acariciá-la de uma maneira meio lasciva, pois, já tinha aberto os olhinhos e assumido uma cara de fome, uma cara de sede, uma cara de quem desejava. Começou a beijar uma greta no caule, como se fosse a boca de uma mulher. Era notório que sentia uma forte atração pela árvore portentosa, florida e de curvas suaves. Sua língua esguia e musculosa criou tal alvoroço que fez escaparem duas ou três joaninhas daquela brecha úmida donde fluía uma saliva viscosa, ou melhor, uma seiva viscosa de sabor incrível. Assim supus, pois, o abraçador de árvores voltara a fechar os olhos e a se esfregar freneticamente.

Súbito, o camarada parou de sugar o orifício gosmento da madeira, afastou-se com a cara lambuzada e começou a se despir com uma pressa de quem queria, podem crer, chegar logo ao epílogo de um orgasmo. Como involuntário voyer em que eu me transformara naquele instante, confesso que não senti prazer algum, a não ser a sórdida curiosidade de saber aonde é que aquilo tudo ia dar, a fim de descrever e contar tudo para vocês, leitores, sem tirar nem por, se é que me permitem um trocadilho jocoso.

Percebi que o rapaz mudara a angulação do quadril, desengonçado, mais parecia uma perereca, a fim de que a manobra propiciasse a penetração de uma outra gretinha, desta feita à altura da cintura. E se houvesse vespas ali dentro, companheiro? Pensei, atônito, preocupado com a integridade física e psicológica de um estranho, um tarado que se metera no meu caminho, numa bonita tarde de verão. Enquanto socava com ritmo a fenda úmida, notei que escorria pelo caule, até as raízes, uma seiva espessa, gelatinosa, que parecia deixar aquela abertura mais confortável e pegajosa do que se poderia imaginar.

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O sol voltou a arder sobre a relva. E como fervia. A ciência garantia que o planeta estava aquecendo, derretendo, dentre tantos motivos, por causa dos desmatamentos, da destruição da flora. A cena do sujeito agarrado, nu, ao tronco de um árvore do cerrado parecia um atentado ao despudor da humanidade, um protesto criativo, uma declaração inequívoca de amor à natureza, coisas de Greenpeace, sei lá. Podia ser apenas um surto, uma doidice, quem podia julgar? Mal se desenhou o arco-íris no teto azul, o homenzinho atingiu o clímax e depositou néctar no oco, fecundando o cerne profundo, pois deu um berro lancinante e vergou o corpo magérrimo para trás. A copa tremia. Um joão-de-barro, por mero ciúme, bateu asas, fugiu do ninho. Se eu soubesse, também voava em desalinho. Flores, em festa, caíam sobre a grama do caminho. O amante de árvores estancou paralisado. Efeito do El Niño? O perfume que exalou das flores foi de dar medo. A não ser, para os passarinhos que foram retornando aos poucos e pousando no corpo daquele homem como se ele não passasse de um galho comum.

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