Antônio Cândido, ao mestre com carinho

por Luis Nassif, GGN

Na semana passada, na Flipoços, Antônio Cândido foi o personagem central da minha apresentação. Contei as conversas sobre a Poços encantada que ele conheceu, sobre suas preocupações com minhas crônicas que publicava aos domingos na Folha, quando narrava inconfidências do começo do século, que me eram passadas por seu primo, Miguel de Carvalho Dias.

— Luis, não escreva isso que os bisnetos ainda estão vivos!

– Mas, professor, é uma história tão bonita…

— Mas os bisnetos, os bisnetos.

Antônio Cândido amava Poços de diversas maneiras. Um de seus hobbies era juntar slogans das casas comerciais da cidade, como a Farmácia Central Salva Sempre, do meu pai, ou Doces Mesquita Coma e Repita dos meus tios – que tinha uma variação “Casal Nunca se Desquita se Comer Doces Mesquita”.

Desde a mais tenra idade, me acostumei com Antônio Candido na poltrona da farmácia. Nas férias, ele saia de casa, ia a pé até a avenida João Pinheiro, encontrava-se com o amigo Chafik Frahya – que dirigia a Serralheria Americana, que vendia material dos Maluf – e íam até a farmácia prosear.

Invariavelmente, depois de alguns minutos de conversa, meu pai os levava até o bar do Turco, na esquina, para o cafezinho.

Como todo filho de pai mineiro, muitas coisa sobre meu pai descobri através dos amigos.

Como a campanha que liderou, ao lado do professor Aloisio Pimenta, pela farmácia de manipulação.

Contou-me o professor que não raras vezes testemunhou o freguês chegando na Farmácia com uma receita. A margem líquida do farmacêutico era de 30%. Em vez disso, papai recomendava que fosse feito um remédio de manipulação, cujo preço ficava abaixo até dos 30%.

Ou então, a grande amizade que tinha com os bisnetos de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, depois que os descendentes foram morar em Poços. Aliás, Poços recebeu os descendentes de Bonifácio, de Teófillo Ottoni entre outras figuras históricas.

Papai sempre falava do amigo ilustre, que se tornara crítico literário no Estadão e que já era dos maiores intelectuais brasileiros. Aos 13 anos, o pessoal do GGN pediu que convidasse o mestre para uma palestra para nosso grupo. Pedi através do meu pai e, quando indagado sobre o tema, soltei um inacreditável “a diferença entre liderança e chefia”. E o mestre aceitou, embora os amigos do GGN não me perdoassem o desperdício de tema.

Um dos colegas, aliás, contista promissor, o Murilo de Carvalho, pediu que eu encaminhasse ao mestre seus contos. Antes de encaminhar, levei para casa para saborea-los. Depois, encaminhei, o professor recebeu, devolveu, provavelmente não teve tempo de comentar. E fui surpreendido com a reação irada. Murilo supôs que fui autor de um boicote colocando no primeiro plano um conto menor, no lugar do que ele havia selecionado.

Se era menor, porque colocou, perguntei para eu próprio, ainda jejuno das excentricidades dos escritores.

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Algum tempo depois, tinha aprendido violão, composto minhas primeiras composições, tentado as serenatas. E passamos férias deliciosas com filhas do Teófilo Andrade – de São João da Boa Vista – e de Antônio Cândido, a Laurinha e as mais velhas. Foram tempos leves e inesquecíveis.

O avô de Antônio Cândido havia sido o primeiro concessionário das águas de Poços, ainda no século 19. O pai, o grande responsável médico pela construção do Balneário, em fins dos anos 20.

As relações familiares do professor mostravam como a elite do país era pequena. Ele era aparentado dos Mesquita, dos Carvalho Dias de Poços, dos Oliveira, dos Azevedo, famílias que provavelmente chegaram nos séculos 18 e 19, expulsas pela inquisição e fincaram pé no sul de Minas e em São Paulo.

Anos depois, o mestre foi jurado em um concurso de contos no Instituto Educacional Coronel Cristiano Osório de Oliveira. Os contos iam sem identificação dos autores. O meu venceu, mas o concurso foi cancelado porque descobriram que o segundo era plágio de um artigo da Seleções e o terceiro plágio de um conto do século 19.

O meu apelava para o realismo fantástico juvenil. Falava em uma casa em que as janelas era soutiens. A diretora, dona Adélia, exigiu que tirasse essas imagens. Por aqueles dias, organizei um seminário em São João e convidei minhas duas primas mais velhas – a Rosa e a Cristina – para falar. Mas o soutien não me saia da cabeça. Na saída do evento, a dona Adelia na minha frente, gritei:

– Dona Adélia, não tire o soutien.

Foi um trabalho explicar a frase. Mas, de qualquer modo, o concurso estava cancelado.

Tempos depois, a prima Rosa foi presa em Ibiuna e Antônio Cândido e Gilda não sossegaram enquanto não conseguiram colocá-la em segurança.

Formado no clássico, fui para São Paulo, entrei na ECA e comecei a trabalhar na Veja. Vez por outra encontrava o professor. Na adolescência, tive conflitos pesados com seu Oscar. E Antônio Cândido tratava de fazer a boa intriga, me contando o orgulho que o velho tinha de mim exibindo as primeiras matérias para o amigo.

Em 1972, nos 50 anos da Semana de 22, fui procurar o mestre, para levantar algum enfoque original sobre o tema. Ele me passou a dica de Agenor Barbosa, um jornalista que escrevera um poema de rimas brancas, e foi o que bastou para se convocado para a Semana. Encontrei o velho Agenor ainda vivo, morando em um apartamento na avenida Rebouças.

Anos depois, quando fui alvo de um processo da parte do então Ministro Saulo Ramos, o professor enviou uma carta à revista Senhor, do Mino Carta – defendendo o filho do amigo.

Meu pai se mudou para Sâo Paulo. Com pouco tempo, foi fulminado por um AVC. E, aí, o mestre sumiu. Não suportava ver o amigo daquele jeito. Apareceu, só, na missa do Sétimo Dia.

Tivemos vários encontros depois disso, inclusive para a biografia que estava fazendo de Walther Moreira Salles, reconstituindo a velha Poços.

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Foram conversas para beber frase a frase. Antônio Cândido tinha horror visceral dos oportunistas, dos vaidosos.

Em uma das conversas, manifestou profunda mágoa com Carlos Guilherme Motta, historiador da USP que, na época, navegava nas ondas de um esquerdismo uspiano juvenil e vaidoso. Procurava diminuir Gilberto Freire, por direitista; e Sérgio Buarque por ter sido escolhido para coordenador de uma coleção sobre História do Brasil, e não ele, o Motinha. E, em ambos os casos, invocava o sacrossanto nome de Antônio Cândido como o grande, visando diminuir Freire e Buarque.

Antônio Cândido se referia a Motinha como “aquele rapaz que escreve muito”, no sentido de quantidade. E se dizia morto de vergonha de ser comparado com Freire, “o maior intelectual brasileiro” e com Sérgio Buarque.

– A única obra relevante que escrevi sobre a cultura nacional saiu atrasada, perdeu o momento -, dizia ele, referindo-se à História Crítica da Literatura Brasileira.

Certa vez tive uma conversa com Fernando Henrique Cardoso. Nem me lembro o tema. Só sei que foi uma discussão sobre um evento histórico qualquer. Matei a troca de ideias com um definitivo:

– Foi o Antônio Cândido que me disse.

E ele:

– Se foi o Antônio Cândido não discuto, porque ele lembra de tudo nos mínimos detalhes.

Escreveu o prefácio do meu livro “O Menino de São Benedito e outras crônicas”. Não desperdiçou elogios. Limitou-se a descrever o que considerava a natureza central do livro, tarefa muito fácil porque o livro fazia parte do universo em que se desenvolveu a personalidade de Antônio Cândido: a formação das pessoas criadas nas pequenas cidades, que permite um olhar atento sobre as características de cada pessoa, do prefeito ao jovem que serve café, ambos despidos dos paramentos das hierarquias sociais.

A Casa da Cultura

De certo modo, a ligação entre Antônio Cândido e meu pai ajudou nos movimentos iniciais que resultaram na Casa da Cultura de Poços, do Instituto Moreira Salles.

Certo dia, início dos anos 90, Plano Collor deixando o país em suspenso, me deu uma baita vontade de procurar o professor. Era a vontade de reencontrar meu pai – que me levou, no mesmo período, a propor a biografia de Walther Moreira Salles.

Telefonei para sua casa. Atendeu a esposa Gilda. O professor estava em Poços, para vender a casa de família. E estava arrasado, me disse Gilda.

Não sei porque convidei Antônio Fernando de Franceschi para ir comigo. Não podia, mas acabou cedendo.

No caminho, fomos falando de como seria legal um projeto em Poços, que permitisse retomar o convívio com a cidade.

Chegamos à casa do professor.Lá estavam o Gustavo e o Fernando, filhos do Chafik. Antônio Cândido nos recebeu e mergulhou nas suas recordações.

– Poços para mim era o Chafik, o Oscar e esta casa -, dizia ele.

Mas a família foi crescendo, novas gerações aparecendo, não queria motivo para discórdias. Além disso, precisavam comprar uma casa para a senhora que cuidara de lá por várias décadas.

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Já tinha se apalavrado com os Miguel, vendendo a casa por 70 mil dólares.

Saímos de la condoídos com o drama de Antônio Cândido. Disse para Franceschi que os Miguel tinha ficado amigos do meu pai e que poderíamos ver com o José Mindlin ou algum outro instituto se não topariam comprar a casa.

A conversa com o Valdir Miguel foi curiosíssimo. Nós, empenhados em falar da importância cultura do professor. A cada informação nova, a caixa registradora do Miguel ia aumentando o preço.

Finalmente, topou: por 200 mil dólares ele toparia passar a casa.

Perguntamos se ele tinha um contrato com Antônio Cândido. Disse que não:

– O Cândido é que nem seu pai, me disse. Depois que dá a palavra não volta atrás.

Voltamos para Sâo Paulo. Franceschi escondeu a informação de que era tesoureiro do Instituto João Moreira Salles. Chegando, procurou Fernando Moreira Salles e propôs a compra da casa. Fernando topou. Mas a condição seria que o Instituto recebesse o nome de Antônio Cândido e conservasse sua biblioteca.

Quando chegou em Antônio Cândido, o mestre não topou.

Ai, o Franceschi me procurou contando a história e pedindo que eu intercedesse junto a ele. Liguei para a Gilda, que me desanimou:

– Foi tanto sofrimento dele, para vender a casa, que não irá querer reabrir a ferida.

Liguei para filhas e constatei o óbvio: toda relação de filhos com pais mineiros é igual,

– É mais fácil ele ceder a você, que é filho de um amigo, do que a nós.

Conversei com o professor. Ele não aceitava batizar um Instituto com seu próprio nome. Além disso, doara sua biblioteca para a Unicamp.

O IMS acabou adquirindo o chalé do Coronel Cristiano Osório da Oliveira. E, aí, Antônio Cândido aceitou fazer parte do conselho.

Nos últimos seis meses acertei uma dezena de vezes com a Eugenia visitar o professor. Eugênia é de uma família caipira do sul de Minas. No último encontro familiar, leu os “Parceiros do Rio Bonito” e encontrou lá a descrição dos hábitos ancestrais dos seus antepassados.

Meses atrás, no Bar do Alemão, um casal sugeriu que visitasse Antônio Cândido. Estivera com ele à tarde e encontraram o professor muito nostálgico das coisas de Poços.

Essa vida complicada, tentando entender um país que se perdeu, me impediram da última conversa com um dos principais responsáveis pelo país que, lá atrás, parecia ter se encontrado.

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