Após baque do Impeachment, esquerda pena para voltar às ruas

por Tomás Chiaverini, The Intercept Brasil

A aprovação de Michel Temer patina na casa dos 10%, o desemprego galopa, medidas impopulares são aprovadas a toque de caixa e a Lava Jato ameaça todos os homens do presidente. Não se pode dizer, portanto, que faltam motivos para insatisfação popular. Apesar disso, os organizadores das manifestações que inflamaram o país nos últimos meses esconderam as panelas embaixo da pia e guardaram as camisetas da seleção para o próximo amistoso. Até aí, nada de mais uma vez que o objetivo de alijar o PT do poder foi alcançado. Mas e os movimentos sociais? E os sindicatos e partidos políticos de oposição? Por que não se mobilizam? Por que não conseguem lotar a Avenida Paulista como fizeram MBL e Vem Pra Rua? Teria a esquerda brasileira perdido a voz, acovardada diante dos panelaços das varandas gourmets?

Por volta das 21h da segunda-feira anterior ao carnaval, sentado numa banqueta na calçada da Paulista, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, garantiu que não. Um bom exemplo, disse, estava ao redor. Nas cerca de 400 pessoas que, desde o dia 15 de fevereiro, estão acampadas diante do escritório da Presidência da República, em barracas cobertas com faixas clamando por moradia e exaltando o “fora Temer”. Mas, como o próprio Boulos pontuou, trata-se de uma mobilização que, como várias outras que pipocam Brasil afora, restringe-se a setores organizados da sociedade.

“Por mais que a gente bote dezenas de milhares nas ruas, isso, por si só, não basta”, disse. “O que precisa acontecer para se ter um salto de qualidade na mobilização é entrar em cena a massa dos trabalhadores urbanos, o povão das periferias que assistiu ao golpe pela televisão, como se fosse uma briga entre políticos, e que ainda está em parte anestesiado.”

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) acampados na Avenida Paulista, em frente ao escritório da Presidência da República Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Para Boulos há dois obstáculos que mantêm essa parte considerável da população longe das manifestações. O primeiro, é o monopólio da imprensa que, segundo ele, “apassiva” muita gente. “Mobilizar pessoas com cobertura ao vivo da Globonews é uma coisa. Mobilizar pessoas por conta própria é outra”, argumentou, numa referência às manifestações contra o governo Dilma.

O segundo obstáculo tem a ver com o fato de que, ainda de acordo com o líder do MTST, parte dos movimentos organizados, nos últimos 20 anos, abandonou os trabalhos de base que os moldaram. “Deixaram de estar junto ao povo, dialogando. De subir o morro, de pisar no barro, e apostaram numa estratégia quase que exclusivamente institucional, de disputa do estado. Com isso perderam a sintonia com o povo mais pobre, das periferias.”

Para Boulos, esse afastamento das bases tem a ver com a estratégia petista que estruturou seus governos em alianças com o Congresso, e levou a reboque parte dos movimento que apoiavam o partido. “Se formos pensar a governabilidade no Brasil só do ponto de vista de maioria parlamentar, nunca teremos um governo de esquerda, porque o formato eleitoral favorece oligarquias regionais. A governabilidade deveria ter sido pensada numa perspectiva da rua, de mobilizar as forças sociais para pressionar as instituições. Mas o governo Lula e o governo Dilma não optaram por isso”, afirmou. “Essa é uma das razões pelas quais, no momento mais necessário, de uma encruzilhada histórica, nós não tivemos condição de trazer mais gente às ruas.”

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Três dias depois, no segundo andar de um sobrado no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, concordou com as palavras de Boulos, mas relativizou o problema da perda das bases.

“A mobilização popular não depende de convocação, não depende de você dizer ‘vamos lá povo’. Isso nós ficamos dizendo todo o ano de 2016. E fizemos todo tipo de proposta: acampamento na Paulista, passeata, greve. Fizemos domingo, fizemos sexta, fizemos  segunda, e o povo não foi”, lamentou Stédile, erguendo as sobrancelhas.

“Os movimentos de massa”, continuou, “têm uma lógica de funcionamento que nem sempre a política explica. Às vezes nós temos de recorrer à psicologia social. E quando o povo se sente derrotado, ele reflui, fica na expectativa”, concluiu.

Titanic

A esquerda vive o pior momento na disputa pelo poder desde a redemocratização e boa parte disso se deve ao declínio do Partido dos Trabalhadores. A avaliação é do cientista político Cláudio Couto, que comparou o partido de Lula a um transatlântico afundando: “Qualquer embarcação menor que estiver em volta pode ser tragada pelo redemoinho. E, se não for tragada, no mínimo fica meio desnorteada”, disse. Como exemplo desse naufrágio iminente, Couto citou a perda de 60% das prefeituras petistas nas últimas eleições – fenômeno que tende a corroer ainda mais o poder do partido, uma vez que as prefeituras funcionam como alicerces da estrutura política nacional.

Para Couto, que é o professor do Departamento de Gestão Pública da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), há uma série de outros componentes nessa crise. Entre eles, destacou o mau momento da economia, uma onda conservadora global, a polarização ideológica da sociedade que mina o diálogo político, e uma grande imprensa que fez oposição a Dilma, mas é conivente com Temer.

Nesse quadro, o papel central PT se deve não apenas ao fato de ele ter sido por tanto tempo o partido hegemônico da esquerda, mas também a uma dificuldade para cortar na própria carne. “O PT pisou muito na bola em termos de corrupção. Então ele também deu um pretexto dos melhores para seus opositores. E jamais fez uma verdadeira autocrítica. Acho que nenhum partido mantém o Rui Falcão na presidência por tanto tempo impunemente. Eu nem acho que ele seja corrupto, mas é o típico líder de partido de esquerda que nunca faz autocrítica, nunca percebe o erro, e o PT padece disso.”

Rui Falcão, que está na presidência do PT desde 2011, foi procurado por The Intercept Brasil, mas, por meio de sua assessoria, afirmou que só falaria se tivesse garantido um espaço de destaque na reportagem. O senador Lindbergh Farias, um dos candidatos a substituí-lo, alegou problemas de agenda e também não atendeu aos pedidos de entrevista.

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Chaga histórica

O envolvimento do PT em casos de corrupção, ainda que visto como uma grande pedra no caminho de manifestações por afastar inclusive antigos militantes, é ao mesmo tempo criticado e relativizado por parte da esquerda. Nesse raciocínio, desvios do tipo, ainda que graves e passíveis de punição, seriam um problema estrutural da política brasileira, usado por setores conservadores como chamariz para uma massa descontente com a freada econômica, colada nos governos petistas por campanhas midiáticas de difamação que, no entanto, pouparam outros atores políticos.

“O sistema político brasileiro é azeitado por corrupção, a engrenagem é essa”, disse Boulos. “Para ganhar eleição tem que ter financiamento de campanha. E financiamento de campanha não é doação, é empréstimo, cobrado com juros, em favorecimento em contratos de obras públicas e estatais. Isso todo mundo sabe há 30 anos. A Lava Jato só botou isso a público, e o fez de forma muito seletiva.”

Para João Pedro Stédile, líder do MST, esperança é que as pessoas comecem a se dar conta das denúncias contra outros partidos. Foto: AFP/Getty Images

A crítica da autocrítica

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas não vê propriamente um silêncio da esquerda. Para ele, “a resistência ao golpe foi hercúlea” e, não fosse ela, Dilma teria sido deposta muito antes. Ele disse não ver a perda das bases citada por Boulos e acha que o que faltou foi uma maior movimentação em defesa do legado petista, desde as denúncias do Mensalão do PT, em 2005. “Faltou um enfrentamento maior com os conservadores para não deixar sedimentar a imagem de que o Partido dos Trabalhadores era um partido igual aos outros”, disse.

“É claro que é muito mais difícil unificar a esquerda, porque isso significa unificar propostas, sentimentos, políticas.”

Ao refletir sobre a atual dificuldade em levar suas bandeiras vermelhas às ruas, Freitas também culpou a imprensa, mas somou a isso uma dificuldade maior de unificar esquerda. “O discurso da direita é chapado, é um discurso simples, oportunista, imediato e superficial. Os movimentos de esquerda são reflexivos entre si, têm diferenças ideológicas, diferenças históricas. Então é claro que é muito mais difícil unificar a esquerda, porque isso significa unificar propostas, sentimentos, políticas”, disse.

Partidos na lona

“A derrota de um projeto de esquerda é desanimadora, para aqueles que lutam”, afirmou o presidente do PSOL, Luiz Araújo, que também creditou parte dessa certa imobilidade diante dos escândalos da era Temer, ao PT, partido que deixou em 2005, após o escândalo do Mensalão. “A esquerda está muito fragilizada para ir para a rua. Como o PT vai fazer uma manifestação contra a corrupção depois de ser carimbado pelo povo brasileiro como um partido corrupto? Seria contraditório”, disse.

Para ele, o campo progressista perdeu em vários sentidos. “Quem era crítico ao PT perdeu porque a primeira experiência de um governo de esquerda deu no que deu. E quem acreditava no governo perdeu o governo.” Isso, segundo Araújo, que também é professor da Universidade de Brasília (UnB), colocou todo um campo político em suspenso. “Nós estamos num interregno, no qual quem era protagonista deixou de ser, mas continua tendo peso nas estruturas sindicais e populares. Um momento em que o novo ainda está tentando surgir”, completou.

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Assim, enquanto o PT, segundo Araújo, aumenta sua “lulodependência”, apostando numa incerta candidatura do ex-presidente em 2018, o PSOL, tenta se sedimentar como alternativa. Mas uma alternativa dentro da crise de desconfiança dos partidos, inclusive com o surgimento de movimentos – como o que ocupou escolas estaduais em todo o país – que querem distância da política tradicional.

A política da não política

Na sede do PCdoB em São Paulo, trajando um vestido vermelho vivo, a deputada Luciana Santos, presidente do partido, usava uma bota plástica cinza que lhe imobilizava uma das pernas, após um acidente doméstico. Sua figura, parte orgulhosa em exibir o vermelho tradicional dos setores da esquerda, parte manquitolando, parecia a metáfora perfeita para o assunto da tarde.

A deputada e ex-prefeita de Olinda (PE) contemporizou o silêncio atual das ruas, argumentando que as manifestações de esquerda, salvo raras exceções – como o movimento pelas Diretas e pela deposição de Fernando Collor de Mello – não chegaram perto da dimensão dos maiores atos contra Dilma (segundo o Datafolha, a manifestação do dia 13 de março de 2016 foi o maior evento político de São Paulo, com 500 mil pessoas). Assim como seus companheiros, Luciana atribuiu parte do sucesso verde-e-amarelo ao apoio da imprensa, que teria trazido, como efeito colateral, uma ojeriza generalizada aos partidos políticos.

Manifestação contra Dilma no dia 13 de março de 2016 foi o maior evento político de São Paulo, com 500 mil pessoas, segundo Instituto Datafolha. Foto: Getty Images

A exemplo de Boulos e Stédile, ela argumentou que manifestações pontuais têm, sim, ocorrido, como a da classe artística contra a extinção do Ministério da Cultura. Mas, para a deputada, as pessoas se movem diante da perspectiva de vitórias concretas, algo que, no momento, não parece estar no horizonte dos movimentos progressistas. Para piorar, ainda de acordo com a deputada, Temer tem usado sua ampla maioria parlamentar para aprovar medidas com uma rapidez que dificulta a oposição. “É uma agenda muito veloz. Você mal consegue discutir os impactos daquela determinada medida, como foi o caso da PEC dos gastos, e ela já é aprovada”, argumentou. Depois tentou vislumbrar um futuro com menos tropeços.

“É preciso entender a dimensão da batalha que a gente está vivendo e lutar por uma frente ampla, que vá para além da esquerda. É preciso resgatar o papel da política e propor um debate de ideias com saídas para o momento atual do Brasil”, disse.

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