Bípede, sem penas e de suéter nos ombros, Doria é a banalidade do mal

Tinha uma cracolândia no meio do caminho até a minha casa. Ficava dentro de um túnel, próximo da saída, e dava para ver pelo lado de fora apenas os vultos daquelas pessoas, criaturas-sombra das ideias e histórias representadas.

De vez em quando eu via sair alguém de lá de dentro. Sempre cobertos pela poeira do asfalto, pelo monóxido de carbono dos carros, pareciam até mais pretos do que são.
Mas eram sempre pretos.

Nunca vi a ex-modelo loira de olhos verdes viciada em crack, capa da Veja.

Talvez todas já tenham sido salvas em campanhas beneficentes de programas de auditório e restaram só os pretos.

O prefeito de São Paulo João Doria pediu e a Justiça autorizou agora então que está aberta a temporada de caça ao cracudo que não interessa ao entretenimento.

Esse personagem contemporâneo de características facilmente identificáveis, que habita os pesadelos movidos à tarja preta dos eleitores de Dória.

O cracudo não é a ex-modelo loira capa da Veja, ela representa o dependente químico, o problema de saúde pública, a vítima da sociedade, a desilusão, o abandono. É aquela que os programas dominicais tentam ajudar para subir o ibope num quadro de antes e depois.

Já o cracudo não tem antes e depois, não tem história a ser contada como releitura da Cinderela. Ele já nasceu na cracolândia, lá sempre viveu e no seu relógio é sempre meia-noite.  Os limites do seu mundo são os limites da sua linguagem.

Mas a gestão Doria afirma então que nem todos serão compulsoriamente internados. Só aqueles que, levados a força pela polícia até um psiquiatra, não apresentem um linguajar compreensível, não se portem de maneira adequada.

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Parece uma distopia, mas é isso o que acontece hoje em São Paulo.

Depois de mandar demolir casas com gente dentro, a nova ofensiva da prefeitura é sumir com os sobreviventes. Encarcerá-los contra a vontade, sem acusação formal ou julgamento.

É assustador porque parece que é exatamente isso o que quer boa parte daqueles que elegeram Doria.

Querem simplesmente não ter que conviver com o problema a caminho do shopping.

Já não são capazes de enxergar aquelas pessoas como seres humanos, e sim apenas como cracudos que dificultam a passagem e ameaçam atrapalhar as compras.

E assim ficamos há poucos passos de retomar a câmara de gás.

Não que isso deva acontecer, pois a hipocrisia dimensionada por um cristianismo de Bolsonaros veta essa possibilidade.

E é desse interdito que surge João Doria, para fazer o trabalho sujo de um jeito que não agrida a hipocrisia de seus eleitores.

No fundo fascistas, mas temerosos de dizer ou mesmo de pensar o que pensam.

No fundo não são maus, pois lhes falta profundidade até mesmo para isso.

São pessoas que temem um Deus vingativo, cracudos, a violência urbana, os direitos humanos…

No fundo, também são vítimas.

Atacados pelo fungo da banalidade do mal, de que nos fala Hannah Arendt.

Doria é a própria banalidade, bípede, sem penas, e de suéter sobre os ombros.

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