Bolsonaro e o fascínio da mediocridade

por Matheus Pichonelli, Intercept Brasil

“A imaturidade é de um profissional que deveria estar dedicado ao seu aprimoramento militar, através do adestramento, leitura e estudos, e não aventurar-se em conseguir riquezas.”

A avaliação consta de um documento do Conselho de Justificação do Exército sobre condutas – digamos – heterodoxas do hoje deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) em seu tempo de militar. Resultado de um processo sigiloso obtido pelo repórter Rubens Valente, da Folha de S.Paulo, a análise ajuda a entender a mentalidade de um pré-candidato à Presidência que vem enfileirando fãs e admiradores como quem coleciona curtidas nas redes sociais.

Nas reportagens publicadas ao longo da semana, nas quais o parlamentar é citado em uma série de atos de indisciplina, é possível confirmar o que qualquer análise menos apaixonada já indicava: Bolsonaro é um sujeito marcado pelo “tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. As palavras não são de um esquerdista disposto a impedir a candidatura do mito, mas do coronel Carlos Alfredo Pellegrino, seu superior à época da ação, nos anos 1980.

“Vocês estão recebendo de quem para me perseguir?”

Bolsonaro não tem merecido outros adjetivos em seu tempo de deputado, que aprovou apenas em 2015 a primeira proposta de emenda constitucional após 25 anos como parlamentar. A sucessão de mandatos é antes marcada por bravatas, ameaças, loas a torturadores, incitação ao ódio e encrencas no Conselho de Ética, o que pode ser observado na tentativa da reportagem em ouvir sua versão, base elementar do bom jornalismo e do direito de resposta: “Vá catar coquinho. Vocês estão recebendo de quem para fazer matéria? Vocês estão recebendo de quem para me perseguir?”.

Deputado de desempenho medíocre, que a um ano da eleição presidencial não foi capaz de esboçar qualquer ideia minimamente clara sobre economia ou questões estruturais, Bolsonaro tem se beneficiado da rejeição aos chamados partidos tradicionais, atingidos no peito pela Lava Jato, e pelo derretimento de antigos símbolos morais de partidos conservadores, caso do senador tucano Aécio Neves (MG).

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Conforme cresce nas pesquisas, é natural que as lupas sobre passado e presente do pré-candidato sejam levantadas, o que não necessariamente indica uma desconstrução do encanto alimentado por ele com uma fatia resiliente do eleitorado. Ao menos a se guiar pelo exemplo de Donald Trump nos EUA.

O deputado Jair Bolsonaro, em novembro de 2016, quando o Conselho de Ética rejeitou o processo contra ele por citar Brilhante Ustra na votação do impeachment. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Na ressaca da eleição do ex-apresentador de TV, entre tantas análises produzidas na época, o escritor americano Dale Beran defendeu que para entender os partidários de Trump seria necessário enxergá-los como “pessoas que nunca apostam no cavalo certo”.

Muito se falou da chamada “classe trabalhadora branca esquecida”, citada por Beran no artigo, mas o interesse dele está nas gerações mais jovens, conectadas e que nunca tiveram os mesmos empregos dos pais, apenas a mitologia dos empregos. Para eles “a América, e talvez a própria existência, é uma cascata de promessas e anúncios vazios”.

Assim, prossegue o autor, esses partidários de Trump têm uma ideologia diferente de um tipo de eleitorado considerado mais óbvio. “Não um pensamento de ‘quando meu cavalo vai ganhar’, mas um trollador e autodepreciativo ‘sei que meu cavalo nunca vai ganhar’”.

Para Beran, o comportamento incompetente, errático e ridículo de Trump é o pilar em que se apoiam seus partidários mais jovens, e a internet acaba funcionando como um catalisador desses afetos.

Guardadas as devidas proporções, o Brasil se tornou também, de uns anos para cá, um depositário de promessas não cumpridas, ou parcialmente cumpridas, desde que sua decolagem foi anunciada pela Economist.

Bolsonaro não chegou até aqui nas pesquisas de intenção de voto pela capacidade de articular ideias e saídas inteligentes para os impasses sociais e políticos do Brasil contemporâneo.

A crise econômica, antes da crise política, colocou a frustração e o ressentimento como alavanca dos afetos políticos, dos quais o “medo” é sempre um aglutinador de votos e discursos. Funciona em cheio com quem acabou de sair da faculdade, por exemplo, e se frustrou com as possibilidades de emprego, mas não só.

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A exemplo dos jovens americanos do artigo de Beran, o brasileiro de 2017 fatalmente terá no círculo das relações pessoais algum primo ou amigo de talento duvidoso convicto de que só não se tornou milionário ou CEO aos 25 anos graças a um sofisticado e bem remunerado complô protagonizado por um balaio de movimentos que comporta de mulheres, gays e negros contemplados pelo sistema de cotas aos defensores do politicamente correto, “essa praga que está acabando com o país”, passando por comunistas da velha guarda à turma dos direitos humanos, assim lembrada como se fosse uma gangue.

O medo dos grupos identificados com Bolsonaro diante do protagonismo exercido por mulheres, e o tato em lidar com algumas delas (vide a forma como deputado conversa com as colegas da Câmara), ou o esforço em minimizar as chagas da escravidão no Brasil, são exemplares deste delírio parcamente racionalizado – e que, no entanto, parece ter um apelo profundo em parte do eleitorado mais rancoroso.

Por trás disso parece haver desejos até hoje mal reprimidos na mente do deputado: aos 28 anos, os superiores de Bolsonaro se preocupavam com sua obstinação em enriquecer garimpando ouro; hoje ele ataca terras demarcadas em áreas que poderiam ser exploradas pela mineração.

Ainda falta muito para 2018, mas Bolsonaro não chegou até aqui nas pesquisas de intenção de voto pela capacidade de articular ideias e saídas inteligentes para os impasses sociais e políticos do Brasil contemporâneo. Chegou até aqui com bravatas que, sem projetar nada no lugar, prometem jogar fora a água suja, o balde e o bebê – sim, falamos da democracia.

Na psicanálise, há quem atribua o mal-estar contemporâneo às agruras de lidar com a própria liberdade e o desejo de restaurar, pela força e a moral, uma autoridade que diga o que fazer, o que é certo, o que é errado. É como se a chinelada causasse menos receio do que o peso das próprias escolhas, os próprios limites, as próprias frustrações – profissionais, mas também afetivas e sociais.

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Bolsonaro é um deputado e ex-militar que jamais seria admirado ou reconhecido pelo brilhantismo. É a versão local do cavalo errado em quem ninguém apostaria – e que, quando confrontado, te manda catar coquinho. Como ele existe uma multidão perfeitamente identificada. Uma multidão que berra, como o fortão do fundo da sala, animada em disfarçar a mediocridade com ofensas a tudo o que lhe soa como diferente.

Resta entender o que é força política e o que é delírio entre os que veem nesses berros a promessa de restauração de uma autoridade moral supostamente perdida.

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