Cunha alerta Temer: “Sabíamos de tudo e de todos”, diz à Lava Jato

por Patricia Faermann, GGN

Uma das principais ameaças para Michel Temer, na contramão de suas estratégias para garantir auto-proteção e de sua cúpula no Judiciário, está dentro do Complexo Médico Penal, em Curitiba. O depoimento de Eduardo Cunha ao juiz Sérgio Moro, na Justiça Federal em Curitiba, nesta terça-feira (07), mostrou que o ex-deputado mantém a tática sinalizada de, se condenado, levar o presidente junto.
Os primeiros sinais de ameaças apresentados pelo peemedebista surgiram com a convocação de Temer como sua testemunha de defesa na investigação em que é acusado de receber, pelo menos, R$ 5 milhões de um contrato da Petrobras do campo de exploração de petróleo, na costa do Benin, na África, em 2011.
O presidente decidiu responder ao questionário por escrito. Cunha enviou, então, um total de 41 perguntas. Mas apenas 20 delas foram liberadas pelo juiz da Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro. Entre as que foram barradas, é visível a estratégia assumida pelo ex-deputado de provar que, se ele é réu ou for condenado, Michel Temer também deve ser.
O duplo viés da defesa, feita pelo polêmico advogado Marlus Arns, conhecido por costurar acordos de delação de empreiteiros e outros investigados e que carrega relações políticas em seu histórico (leia aqui), era de que, por outro lado, se o presidente mostrar desconhecimento ou negar irregularidades, ao mesmo tempo o ex-deputado não poderá ser condenado.
Entre as poucas questões liberadas por Moro a Michel Temer, uma abordava uma reunião, em 2007, supostamente para discutir as indicações do PMDB para diretorias da Petrobras. Cunha alerta que, assim como ele, o atual presidente participou e, além disso, foi um dos organizadores do encontro. Na resposta escrita, Temer negou ter participado do encontro.
Ao juiz Sérgio Moro, Cunha disse que o presidente mentiu. “Fui comunicado (sobre a reunião), tanto eu como Fernando Diniz, na época, pelo próprio Michel Temer e pelo Henrique Alves (ex-ministro e aliado muito próximo de Temer). O Michel Temer esteve nessa reunião junto com Walfrido Mares Guia”, relatou ao magistrado.
Explicou que a reunião “era justamente pelo desconforto que existia com as nomeações do PT”, colocando, à época, Graça Foster na Diretoria de Gás e José Eduardo Dutra na Presidência da BR Distribuidora. Cunha acrescenta que essas indicações foram “feitas sem as nomeações do PMDB”.
Por conta disso, naquele ano de 2007, “houve uma revolta da bancada do PMBD na votação do CPMF”, como resposta do partido contra as decisões do PT, e Temer reuniu os caciques da sigla para discutir. “Nesse dia, eles chamaram, Michel e Henrique Alves chamaram para essa reunião, para acalmar a bancada, e a bancada acabou votando em seguida a CPMF”, contou.
“[Temer] participou sim da reunião e foi ele que comunicou a todos nós o que tinha acontecido na reunião, porque não era só o cargo da Petrobrás, era outras várias discussões que aconteciam no PMDB”, lembrou Eduardo Cunha.
O relato é o primeiro que dá sinais de ameaça ao governo atual. Quando proibido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de seguir ocupando a Presidência da Câmara dos Deputados e, em seguida, cassado do mandato de deputado federal, Cunha negou que delataria os seus antigos aliados.
Entretanto, o questionário enviado a Temer como testemunha do processo, no fim do último ano, trouxe à tona, novamente, o temor para a bancada do PMDB. Na tentativa de se salvar, Cunha deve mostrar que se ele era um dos responsáveis por comandar o esquema de corrupção dentro do PMDB na Petrobras, o então presidente da sigla, Michel Temer, teria conhecimento sobre indicações, decisões e influências, e deveria ser também responsabilizado na Lava Jato.
A conclusão de sua estratégia, iniciada desde o ano passado, foi confirmada no depoimento a Sergio Moro. “Tudo era reportado, sabíamos de tudo e de todos”, resumiu Eduardo Cunha, mostrando que as práticas de Cunha que seriam criminalizadas pela Lava Jato integram o jogo político, e todos a praticavam.
Acompanhe as informações de Eduardo Cunha sobre o contrato da Petrobras investigado, a partir do minuto 12:08, e sobre as nomeações da Petrobras envolvendo Michel Temer, a partir do minuto 19:52:

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