De quanto você precisa para ser feliz?

“Tive pena de mim mesma. Cresci com a ideia de que precisava de muito para ser feliz”

Letícia Mello une o prazer de conhecer o mundo a trabalhos sociais

por René Ruschel, CartaCapital

Ao completar 10 anos de idade, Letícia Mello, gaúcha de Cruz Alta, havia morado em seis cidades, frequentado oito escolas e habitado em dez casas diferentes. O pai, engenheiro eletricista recém-formado, buscava uma oportunidade de trabalho e a cada nova oferta de emprego a família embarcava em uma aventura.

“Gostava de embalar com a minha mãe os poucos pertences que tínhamos. Eu sabia como ninguém embrulhar copos com jornal e identificar as caixas com a palavra ‘frágil’ escritas à caneta.” Dos 12 aos 17 anos, Letícia morou em Curitiba, de onde saiu para estudar hotelaria e turismo na catarinense Balneário Camboriú. 

Aos 18, resolveu ampliar seu espírito nômade e rodar o mundo. Primeiro, Estados Unidos, com direito a uma esticada até o Havaí. Depois Peru, Nova Zelândia e Austrália. Quando voltava da Oceania, durante uma escala na ilha de Bali, na Indonésia, encontrou seu destino. “Fiquei encantada pela cultura, hábitos e costumes do povo asiático. Sempre fui apaixonada pelo desconhecido e o que vi me fascinou sobremaneira.” 

Sem dinheiro ou patrocínio, a gaúcha viaja pelo mundo de mochila. Nos Estados Unidos, chegou a trabalhar 90 horas por semana como salva-vidas, camareira e na limpeza de mesas em restaurante. O conforto cedeu espaço à liberdade e aventura. Letícia estava decidida a conhecer o planeta e ser simplesmente uma viajante.

“Quando alguém pergunta de onde sou, respondo com um sorriso: ‘De lugar nenhum’.” A diferença é que, por onde passa, ela não se comporta como uma simples turista. Prefere fazer uma imersão nos costumes locais e viver como nativa. Não se limita aos pontos turísticos, mas procura algo concreto, deixar ao menos uma marca que reflita na vida dos outros. Não é à toa que seu projeto se chama “Do For Love” (ou “Faça por Amor”). 

Seu encanto pela Ásia a fez ficar cinco dias trancafiada no apartamento em busca de uma alternativa para voltar ao continente. Propôs-se a ser voluntária em qualquer programa que custasse pouco ou quase nada. Não exigia benefícios, nem mesmo as passagens de ida e volta. Seu sonho era conhecer a realidade dos habitantes locais e ser útil. 

Letícia liderou um mutirão para construir a casa de uma viúva na Camboja (Arquivo Pessoal)

Um projeto no oeste da Tailândia chamou sua atenção. Na província de Sakaeo, um vilarejo pobre e esquecido de pouco mais de 200 habitantes precisava de professores de inglês para crianças carentes.

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O objetivo era despertar o interesse delas pelo idioma e prepará-las para funções no setor de turismo, opção à miséria da agricultura ou à prostituição. Em menos de 60 dias, Letícia conhecia a escola Watputthisan e iniciava a experiência de servir por amor.

Durante o período em que viveu na Tailândia, a brasileira recebeu em troca moradia e comida (às vezes, um grilo frito no café da manhã ou um escorpião no almoço). “Gostei mais do escorpião”, brinca. “É mais crocante. Grilo tem o miolo meio mole.” 

Sua renda não passava de 500 dólares por mês. Também ensinou inglês para um grupo de policiais e em uma escola de monges budistas. “Conviver com os estudantes budistas foi um grande aprendizado.” Depois de seis meses na Tailândia, Letícia repetiu a experiência no Camboja e no Vietnã.

No Camboja, a gaúcha investiu 400 dólares doados por amigos em um mutirão para construir a casa de uma  viúva com dois filhos pequenos, abandonados pelos pais desde criança, com problemas de locomoção e que pediam esmola em frente a restaurantes.

“A viúva vivia na comunidade e a escolha como beneficiária foi dos moradores e dirigentes do projeto.” Em troca, a mulher ficou responsável pela limpeza e manutenção da escola.  

A gaúcha também deu aulas de inglês a crianças na Tailândia (Arquivo Pessoal)

De volta ao Brasil, Letícia escreveu um livro, Do For Love, no qual reúne as histórias e experiências de sua vida. Agora, acaba de retornar de mais uma temporada pela Ásia e quer concluir um documentário sobre os projetos sociais.

Aos 28 anos descobriu que, mesmo nos recônditos mais longínquos e miseráveis do planeta, crianças não necessitam de piedade, mas de amor, compaixão e solidariedade. “Eu tive pena de mim mesma. Cresci com a ideia de que precisava de muito para ser feliz. Fui ensinada que, quanto maior fosse minha casa, maior seria a alegria. Só esqueceram de falar que uma casa grande tem muito espaço para o vazio se instalar.” 

O futuro está traçado: viajar e implementar seu projeto mundo afora. Não importam as dificuldades. “Para ser forte, é preciso sentir a fraqueza. É preciso saber aceitá-la”, filosofa. 

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