“Dória is in the air”. Festas de amor e traição

por Fernando Brito, Tijolaço

Pouco escapa do olhar feminino, mais atento ao “clima” que nós, homens, que andamos mais perto daquilo que Nélson Rodrigues chamou de “idiotas da objetividade”.

Duas repórteres – Maria Cristina Fernandes(MCF) , no Valor, e Monica Bergamo(MB), na Folha– acompanharam a festança da burguesia paulistana em homenagem a seu novo herói, João Dória Junior, a pretexto de comemorar o novo casamento de Luiz Carlos Trabuco, algo tão íntimo que reuniu mais de 300 convidados, muitos dos quais, conta Monica, “ainda nem sabiam que eles estavam juntos”.

O clima deste puro amor foi tão contagiante que a dona da casa, relata Maria Cristina, recebeu o prefeito João Dória – não se vestia de gari, claro, mas meticulosamente “casual”, juvenil, sem o paletó ou o blazer dos demais – chamando-o de “a esperança do Brasil”.

Teve, porém, de conter o entusiasmo, como tiveram de contê-lo os que lhe dirigiam “os gritos de ‘presidente’ de diferentes lugares da plateia” (MCF).

“Bem que nós queríamos, mas o Geraldo [Alckmin, governador de São Paulo] vem”, dizia uma das pessoas no jantar sobre a possibilidade de alguns dos convidados, próximos do prefeito, lançarem naquela noite o nome de Doria para a Presidência da República em 2018.(MB).

A anfitriã, porém, não se furtou a enche-lo de elogios ao microfone. Lucília,  irmã do empresário Abílio Diniz, chamou o falso menino, que já beira os 60, como uma tardia “maior promessa de renovação da política nacional.”

A “saia-justa” não tirou o rebolado de Dória, acostumado às artes de showman. Rápido como um raio, tirou os sapatos, subiu num rico banquinho e fez sua profissão de fé ao padrinho, “o maior nome da política nacional”.

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“Não sou candidato a nada. Meu candidato à Presidência é Geraldo Alckmin. Aprendi com meu pai a ser [frisando as sílabas] le-al. Lealdade não vai me faltar nunca.” E derramou-se em elogios, chamando o governador de “mestre” e “professor”. Alckmin, ao lado, sorria. (MB).

Palmas da platéia, e que platéia, bem diversa daqueles sertanejos de Monteiro da Paraíba, que comemoravam a água com a felicidade com que tomam champanhe:

A casa cheia da irmã do empresário Abílio Diniz, a poucos metros de onde mora o prefeito, não deixou dúvidas de que a candidatura é imbatível no coração do Jardim Europa. A lista marcou 340 presenças bronzeadas, de advogados e publicitários a Bruna Lombardi, circulando entre mesas de sushi e bandejas de Veuve Clicquot, mas lá estavam também empresários da indústria (Jorge Gerdau Johannpeter e Walter Torre), do agronegócio (Rubens Ometto), do varejo (Carlos Jereissati Filho, Luiza Trajano, Flávio Rocha, Sonia Hess e Sidney Oliveira) e de serviços (Chieko Aoki e Carlos Wizard Martins). Doria e Haddad podem voltar a se encontrar em 2018 Jair Ribeiro (Indusval) e Manuel Tavares de Almeida (Banco luso-brasileiro) pareciam os únicos parceiros do banqueiro anfitrião. (MCF)

O velho Jorge Gerdau Johannpeter –  como Trabuco, com seus negócios envolvidos com a Operação Zelotes, por acusações de sonegação – elogiava Dória ao estilo FHC – “é o que temos” – e o publicitário Nizan Guanaes, aquele que aconselhou Temer a ser mais impopular, classificava-o como “o nome mais aparelhado” para enfrentar o ex-presidente Lula.

Talvez por piedade, certamente por falta de expressividade, nenhuma das duas fala da expressão de Geraldo Alckmin, exceto de seu sorriso. Petrificado, suponho eu.

O produto parece estar pronto para ser lançado. O “mercado” está encantado, finalmente tem alguém tão comprometido com o povo e os destinos do Brasil tanto quanto eles são: nada.

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Penitencio-me, portanto, do termo burguesia que usei ao início do texto.

Não temos burgueses, como os que elevaram França, com a Revolução, ou a Inglaterra, com Oliver Cromwell, nem mesmo os ambiciosos Rockefeller, Vanderbilt, Carnegie e outros que elevaram os EUA à potência que são hoje.

Temos espertos, que querem o poder apenas para que ele não seja ocupado por quem tenha a veleidade de querer que sejamos um país.

É o que temos, como diz Gerdau.

PS. O poema no qual a Folha se inspira para o título é “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. Uma injustiça maledicente com o “Santo”.

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