E o que vamos fazer com os nossos perus?

por Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

Conseguiram. O mundo fechou as portas à carne brasileira e começaram as demissões nos frigoríficos.

Com a queda nas vendas, frigoríficos administrados pela Central de Carnes Paranaense demitiram 280 funcionários nesta quarta-feira.

Na terça, as exportações já haviam caído de US$ 63 milhões por dia para US$ 74 mil.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, calcula que os prejuízos com a Operação Carne Fraca podem chegar a US$ 1,5 bilhão.

Hoje acordei com vontade de não escrever nada e desanimei de vez quando abri o computador e encontrei as mesmas notícias de ontem que acabei de ler nos jornais desta quinta-feira.

Mudei de ideia quando li a reportagem de André Borges, no Estadão, sobre o que está acontecendo em Mineiros, município de 60 mil habitantes, a 450 quilômetros de Goiânia:

“O clima é de desespero entre os produtores de peru e frango do município, que abastecem o complexo frigorífico da BRF Perdigão, unidade que está com as portas fechadas desde sexta-feira, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca”.

Nada como um repórter para contar o que está acontecendo na vida real dos milhares de fornecedores dos grandes frigoríficos, depois que 1.100 agentes foram mobilizados pela Polícia Federal para prender 30 corruptos.

Em Mineiros, o drama atinge 240 famílias proprietárias de granjas que criam 4,3 milhões de perus.

A cada dia, 25 mil aves eram abatidas e processadas no frigorífico da BRF, um dos gigantes do setor. Com o fechamento da unidade, 150 mil perus já deixaram de ser abatidos e continuam confinados, engordando nos criadouros.

O que fazer? Ao passar de 25 quilos, as aves não podem mais ser abatidas por limitações técnicas da fábrica e para atender às exigências dos importadores, em sua maioria da União Européia.

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“O que temos para dizer é simplesmente alarmante. Estamos perdidos. Não temos nenhuma relação com as acusações, mas estamos aqui sozinhos, sem ter a menor ideia do que vai acontecer”, desabafou ao repórter, o vice-presidente da Associação dos Avicultores Integrados da Perdigão em Mineiros, Fábio Leme.

Acusada de pagar propina a fiscais para facilitar a emissão de autorizações sanitárias e evitar o fechamento da unidade, a BRF ainda não se manifestou sobre o que vai acontecer com os avicultores integrados que abastecem a sua produção.

Com o embargo das importações de carnes brasileiras, a mesma situação deve estar se repetindo pelo país afora, sem que até agora o Ministério da Agricultura tenha apresentado um plano de emergência para socorrer os pequenos produtores.

Caminhões e navios parados, fábricas de ração e insumos sem receber novos pedidos, o efeito cascata em toda a cadeia produtiva, que emprega cerca de 7 milhões de trabalhadores, está só começando.

Sem ter a quem apelar, os avicultores de Mineiros bem que poderiam encaminhar a pergunta estampada no título ao delegado Maurício Moscardi Grillo, que comandou a “maior operação operação da história” da Polícia Federal, sem pensar nas consequências.

Vida que segue.

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