Em meio à tragédia do TSE, por que os comentaristas da GloboNews riem tanto?

por Joaquim de Carvalho, DCM

O Brasil vive hoje uma tragédia e, contraditoriamente, é visto no exterior como uma piada, a vida real que séries como House of Cards tentam copiar.

Se o momento que vive o Brasil pudesse ser resumido em uma imagem, poucas superariam a do quarteto que faz comentários sobre política na Globo News – Renata Lo Prete, Cristiana Lobo, Gerson Camarotti e o maestro Merval Pereira.

Eles riem muito, fazem piadas e explicam pouco.

A dificuldade que o quarteto tem de fazer uma análise apropriada da conjuntura política não decorre da inépcia, já que são experientes, mas da impossibilidade de expor com isenção a origem da crise: Dilma Rousseff foi alvo de um golpe, arquitetado pelas lideranças do PSDB, com o apoio decisivo da própria Globo.

Michel Temer foi o beneficiário circunstancial.

Ninguém conseguirá entender o que se passa no Brasil sem reconhecer como premissa que a queda de Dilma Rousseff foi uma vingança de quem não aceitou a derrota eleitoral e não quis esperar o tempo da democracia para tentar reverter, na urna, o resultado adverso.

Democracia não admite atalho.

E desde a reeleição de Dilma, o que se vê é uma sucessão de farsas.

A última delas é o atual julgamento pelo TSE da capa Dilma-Temer.

Todos dão como certos três votos a favor de Temer, independentemente dos argumentos apresentados pelo relator.

Ora, se os ministros já têm convicção firmada antes da análise das provas, por que torrar a paciência do público com uma leitura cansativa do relatório, com transmissão ao vivo?

A resposta está no que disse Gilmar Mendes ao relator, Herman Benjamin, como que cobrando dele a fatura por “estar brilhando na televisão do Brasil todo”:

Essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas.

No duelo de vaidades, Herman usou o velho truque da falsa modéstia:

“Vossa excelência [Gilmar Mendes] sabe que eu prefiro o anonimato, muito mais. Um juiz dedicado a seus processos, que não tem nenhum glamour”.

Se esse julgamento tem algum valor, é desnudar Gilmar Mendes, com as colocações habilidosas que faz o homem que prefere o anonimato.

Ao fazer isso, lembrando o que disse Gilmar Mendes em outros julgamentos, Herman Benjamin escancara a contradição de um ministro que se permitiu frequentar a casa de um dos réus da ação, Michel Temer, e revelou ser seu amigo há mais de 30 anos.

Só por essa declaração de amizade, Gilmar Mendes deveria se declarar impedido de julgá-lo.

Por essas e por outras, o julgamento no TSE se tornou um jogo de cartas marcadas.

Já se sabe o resultado da sentença: o TSE vai inocentar Temer.

A única chance de reverter esse resultado é se a vaidade de Gilmar Mendes superar os laços que o unem a Temer.

Parece que Herman joga suas fichas nisso.

Mas, nesse caso, o julgamento do TSE pode ser considerado qualquer coisa, menos uma ação de justiça.

E como analisar o que acontece na Justiça Federal em Curitiba?

Páginas e páginas são escritas, horas de depoimento gravados, mas já se sabe que o juiz decidiu a sorte de Lula, antes mesmo de analisar as provas: vai condená-lo.

Se não for no processo do tríplex, será no próximo.

Tantos foram abertos que não faltará oportunidade para saciar a sede de vingança de quem vem perdendo eleições desde 2002.

Que justiça é esta?

É isto que os analistas devem enfrentar: a crise no Brasil se deve, em grande medida, à parcialidade do Judiciário.

Isto vale tanto para um lado quanto para o outro.

Por exemplo, em Brasília a delação de Joesley Batista não deveria ser homologada.

A criminalista Luiza Eluf publicou um artigo no Estadão sobre a Lei de Combate ao Crime Organizado (Lei n.º 12.850, de 2 de agosto de 2013), que admitiu a delação premiada.

Luiza Eluf lembra que Joesley e Wesley Batista jamais poderiam receber os benefícios da lei. Escreveu:

Dentro dos parâmetros determinados pela lei aqui tratada, podemos observar que os irmãos Wesley e Joesley Batista, proprietários de um enorme conglomerado de empresas, não poderiam ter sido incluídos no benefício de não ser denunciados porque não se pode afirmar que eles não seriam líderes da organização e que teriam sido os primeiros a denunciar a rede criminosa e seus autores

A Lei de Combate ao Crime Organizado admite a delação com o objetivo de possibilitar ao Estado identificar e punir os chefes de organizações criminosas.

Como se vê nas gravações tornadas públicas, Joesley não tem uma relação subalterna com os políticos.

Tanto que, no caso de Michel Temer, a JBS é que define valores e como serão feitos os pagamentos de propina.

Joesley era procurado por políticos de todos os partidos e fazia a distribuição conforme os ganhos obtidos do orçamento público.

O dono da JBS encarna o poder econômico, talvez o único existente no Brasil.

Isso vale também para a Odebrecht.

A comparação não é descabida:

Imagine Pablo Escobar, chefe do tráfico na Colômbia fazendo delação premiada para entregar seus subalternos. Aceita a delação, ele se muda para os Estados Unidos e vai desfrutar de sua fortuna.

Não faz sentido.

A Globo já foi flagrada em uma operação de sonegação de impostos para a aquisição dos direitos da Copa do Mundo.

A família proprietária violou a lei ambiental para construir uma mansão em Paraty.

Um de seus diretores negociou benefícios tributários para a aprovação da atual lei eleitoral – de gratuito, o horário eleitoral só tem o nome.

A emissora tem uma fatia do bolo das verbas publicitárias muito maior do que sua audiência – isso de todos os partidos, em todas os entes federativos, em todos os tempos.

A Globo violou a lei e se beneficiou do orçamento público e nada aconteceu.

É engano imaginar que ela compra benefícios com moeda sonante.

Mas ela tem um ativo que, de tão valioso, não pode ser mensurado em real.

Seus programas de televisão, sua linha editorial.

Em troca de benefícios, os políticos aparecem.

Se Michel Temer decidisse falar sobre isso, prestaria um grande serviço ao País — talvez o único.

Ele poderia dizer, por exemplo, por que e como vetou um deputado do PMDB para a Comissão de Comunicação da Câmara.

Temer é uma aberração política – sem ele, não haveria golpe – , mas, quando a Globo se empenha tanto para colocá-lo para fora, é de se perguntar: o problema é Temer ou a Globo?

Guardadas as proporções, Temer é um laranjão.

Se ele enriqueceu com o dinheiro dos corruptores, imagine o que ficou para estes.

Temer deve sair porque, como liderança da nação, é imprestável.

Mas quem se beneficiou das tramoias dos políticos continuará intacto.

Isso vale para Joesley da JBS, a Odebrecht e também para a Globo.

Talvez seja esta a razão dos comentaristas de política da GloboNews rirem tanto.

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