Gilmar e Moro agora querem punir vazadores

Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

por Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

Durante três anos, a força-tarefa da Lava Jato fez da tabelinha com a mídia para divulgar vazamentos seletivos um dos instrumentos para conquistar o apoio da opinião pública.

Ao comemorar o aniversário da operação, na semana passada, o juiz Sergio Moro agradeceu pelo Facebook este apoio, que, segundo ele, seria garantido pela quase totalidade da população.

Enquanto o vaza-vaza se limitava a denunciar políticos do governo anterior, hoje na oposição, todo mundo achava bonito e não me lembro que o juiz tenha se manifestado contra esta prática transformada em rotina nas investigações.

Agora que os vazamentos deixaram de ser seletivos e atingiram praticamente toda a cúpula política do país, com as delações da Odebrecht, Sergio Moro e Gilmar Mendes, ministro do STF e presidente do TSE, resolveram agir no mesmo dia contra os vazadores.

Nesta terça-feira, Sergio Moro mandou a Polícia Federal conduzir coercitivamente para prestar depoimento, em São Paulo, o blogueiro Eduardo Guimarães, investigado por ter vazado informações sobre uma operação contra o ex-presidente Lula, em março do ano passado.

O objetivo da ação da PF era obter de Guimarães, editor do “Blog da Cidadania”, o nome da fonte que lhe passou as informações. Manter o sigilo da fonte é um direito assegurado pela Constituição.

“A arbitrariedade é bem clara quando ele é conduzido coercitivamente sem jamais ter sido intimado. A segunda arbitrariedade é a violação do sigilo da fonte”, disse o advogado do blogueiro, Fernando Hideo Lacerda.

Em nota conjunta, a Federação Nacional dos Jornalistas e o Sindicato de São Paulo afirmaram que “a Polícia Federal ataca a liberdade de imprensa e de expressão do blogueiro _ a mesma PF que tem vazado informações seletivamente de acordo com os próprios interesses”.

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Sergio Moro não quis se manifestar sobre a operação. “Sem comentários”, limitou-se a dizer, repetindo as célebres palavras de Armando Falcão, ministro da Justiça durante a ditadura militar.

Em Brasília, o ministro Gilmar Mendes acusou a Procuradoria Geral da República de praticar crime ao vazar informações sigilosas e defendeu a anulação das delações da Odebrecht.

Para Gilmar, o vazamento de dados sigilosos “é uma forma de chantagem implícita ou explícita. É uma desmoralização da autoridade pública”.

Não se tem notícia de que alguma autoridade tenha sido investigada e muito menos punida ao vazar informações à imprensa ao longo de toda a Operação Lava Jato.

No enredo do Samba do Brasil Doido que desfila em 2017, como sabemos, a Constituição e as leis são flexibilizadas e adaptadas às conveniências de cada doutor conforme as circunstâncias do momento.

Ao contrário do que se costuma dizer, a Justiça não é cega. Tem mil pesos e mil pedidas, a gosto do freguês.

Em tempo: falando muito e a toda hora, o ministro Gilmar Mendes mais parece candidato em campanha. Campanha para quê, afinal?, ainda que mal me pergunte.

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