Não se sinta trouxa pelas expectativas criadas. Geralmente elas nascem de mentiras bem ditas

por Larissa Bittar, Revista Bula

Foram anos durante os quais o principezinho era quase unanimidade. Suas frases, replicadas em capas de cadernos, palestras motivacionais e bilhetes amorosos, ecoavam pelo mundo levando um pouco de doçura a almas petrificadas. Em determinado momento, porém, o encanto passou a ser tachado de brega. Virou moda torcer o nariz para o enredo outrora aclamado. Constrangidos, leitores adultos passaram a negar o apreço pelas aventuras interplanetárias do garotinho curioso e solitário. “É raso, é cafona, é infantil”, sentencia alguma mente erudita. E então o admirador (agora secreto), acovardado pelo receio de parecer presa fácil de tramas superficiais, concorda com o interlocutor. “Conselhos absorvo apenas os de Nietzsche e Schopenhauer”, garante, enquanto pensa na bonita lição deixada pela rosa sob a redoma.

Não sei precisar quando e por qual razão parte expressiva da minha geração passou a debochar das peripécias do rapazinho loiro que embalou nossa infância. Talvez a desmoralização venha dos recorrentes elogios ao livro em concursos de misses mais competentes no andar majestoso que na explanação sobre obras literárias. Talvez venha da incorrigível petulância dos críticos em desdenhar de tudo o que é popular. Nada, entretanto, tem despertado mais contrariedade nos odiadores da obra de Saint-Exupéry que sua sentença mais famosa. Diga em alto e bom som que somos responsáveis por aquilo que cativamos e receba como troco olhares abismados e reações pouco amistosas.

O mantra atual é o de que ninguém pode ser responsabilizado pelas expectativas alheias. É a regra do “cada um por si” que privilegia o não apego e, sobretudo, a ausência de comprometimento com o outro. Seria insano defender que devemos carregar nos ombros as dores e os sonhos dos que passam pelo nosso caminho e projetam sobre nós seus ideais fantasiosos. Mas arrisco dizer que raramente castelos são construídos sozinhos. Na intenção de conquistar afetos que preencham vazios e levantem egos, distribuímos sorrisos, palavras, juramentos, oferecemos mundos e fundos como quem grita “eu sou especial, goste de mim”. Conquistado o alvo, revelamos inabilidade em lidar com a demanda que criamos e alimentamos. Como zumbis em final de feira, famintos de atenção, abocanhamos corações a nosso bel-prazer. Saciada a fome, jogamos os restos na sarjeta, proclamando que os buracos deixados no peito atingido são mera responsabilidade do ferido.

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Na complexa teia que rege amizades, romances, convívio familiar e relacionamentos profissionais é difícil definir o limiar que distingue o que de fato foi ofertado daquilo que foi imaginado. Há, certamente, confusões resultantes do querer excessivo de um lado em contraste com a indisposição​ em corresponder do outro. Contudo, as ilusões geralmente são via de mão dupla, sedimentada pelo anseio de quem espera muito em dissonância com a irresponsabilidade de quem promete demais. Crescer, mais do que tirar os livros infanto-juvenis da cabeceira da cama, é honrar as relações nas quais nos permitimos embarcar — não necessariamente em sua perpetuação, mas ao menos no respeito aos que foram cativados.

O principezinho, hoje visto como emocionalmente dependente, é chamado de carente e egocêntrico. Duplamente injusto. Primeiro porque a frase que tanto causa controvérsias saiu da boca da raposa, não da sua. Segundo porque não há mal na consciência de que somos parte dos sentimentos dos que passaram pela nossa trajetória. Reconheço que a raposa pesou um pouco a mão. Ela pede para ser cativada. “Onde está o amor-próprio, dona raposa?”, diriam os psicólogos modernos. Posteriormente, sacramenta seu raciocínio condenando o príncipe a levar para sempre consigo os amigos que fez. “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas…” E como a menção ao eterno machuca os ouvidos da sociedade que privilegia o descartável! Ponderados esses dois pontos, sigo acreditando que temos compromisso com quem amamos, cativamos, inserimos em nossa vida. Talvez não seja uma forma pragmática de enxergar as coisas, mas “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”, já dizia um livro de que gosto muito.

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