O Brasil retirou Dilma. Não deveria ter medo da saída de Temer

por Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que uma eventual cassação de Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e uma consequente eleição indireta seria ”mais uma confusão” ao país. E teme, com isso, a retração de investidores.

“O Brasil está há muito tempo de pernas para o ar, está começando a assentar um pouco. Levar muito tempo em um julgamento que põe em risco a situação vigente tem consequências negativas”, afirmou à rádio em entrevista à rádio CBN.

O comentário é um tanto quanto oportunista, uma vez que ninguém levou isso em consideração no processo que desaguou no impeachment de Dilma Rousseff. Que deveria ter sido julgada pela assinatura de decretos de suplementação orçamentária e pelas ”pedaladas” fiscais em 2015. Mas sabemos que isso foi formalidade. As justificativas presentes nos discursos dos deputados federais na votação do impeachment passavam pelos erros na condução econômica do país e pela corrupção em seu governo. Já a razão prática era a tentativa de entregar alguém ao sacrifício e trocar o comando para ”estancar a sangria”.

O fato, como todos sabemos, é que Dilma havia perdido o respaldo político e popular por conta da crise e das repercussões da Lava Jato. Já o atual governo federal segue com o respaldo do PSDB por estar implementando as reformas defendidas pelo partido. Por isso, diante de graves acusações de corrupção envolvendo Michel Temer, sua cúpula de governo e sua base de apoio no Congresso Nacional, o discurso seletivo do ”deixa disso” e do ”não fale em crise, trabalhe” tem suas vedetes.

Muita gente boa vem alertando dos riscos de uma queda de Michel Temer, com o Congresso Nacional elegendo indiretamente alguém de sua confiança para um mandato-tampão até o final de 2018. Pois há uma chance considerável que a faixa presidencial seja entregue a algum ser inominável, se ele garantir a preservação da classe política atual. Mas há quem defenda uma interpretação da legislação que permita eleições diretas – saída mais democrática, que garantiria legitimidade à aprovação de reformas ou o retorno dos projetos à prancheta de desenho. Tudo depende de força política e apoio popular.

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Como venho dizendo aqui há mais de dois anos, com o impeachment os dois partidos políticos que foram a maior esperança do país e em torno do qual a democracia brasileira se consolidou nas últimas duas décadas caminharam para uma Destruição Mútua Assegurada. A guerra suja aberta abriu caminho para que se jogasse a criança fora com a água suja do banho, ou seja, para que instituições democráticas fossem menosprezadas. No vácuo, pessoas decretaram a inutilidade da política – que, teoricamente, deveria ser uma das mais nobres práticas humanas.

Os principais nomes do PSDB amargam índices ridículos nas pesquisas de intenção de voto para 2018. O povo percebeu que o partido está envolvido na mesma corrupção que denuncia. E o PT, ah o PT… Esse desidrata em público, por seus próprios erros e delitos. Ainda depende de Lula para continuar respirando por aparelhos. Em outras palavras, seu futuro depende do fato de ele não ser condenado em segunda instância em 2018.

Há quem acredite no perigo de ”salvadores da pátria” que, prometendo nos tirar das trevas, nos jogariam no abismo, sem o empecilho de freios e contrapesos. Novos nomes podem se apresentar, inclusive usando o PT e o PSDB como plataforma. A pergunta é se eles representariam os ideais democráticos que estavam na fundação de ambos os partidos ou serão a maneira mais fácil de voltarem ao poder, rifando a dignidade e ignorando a autocrítica.

Ao final de tudo isso, sobrarão muitas baratas, que serão referência política e poderão ser eleitas. Porque, se por um lado, são asquerosas, por outro, são resistentes. Sua espécie estava lá antes de nós e estará muito depois de irmos embora.

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Mesmo diante desse risco, temos que ir até o final e depurar o sistema, culminando em uma grande Reforma Política – mais importante, hoje, que as Reformas da Previdência e Trabalhista. Porque resolver esse imenso passivo é, inclusive, a melhor ação contra a multiplicação de baratas.

Tenho visto muita gente inteligente pedir o fim das investigações da Lava Jato, o fim das delações premiadas, o fim da prisão de empresários e políticos envolvidos em corrupção para que o país volte à ”estabilidade” e encontre um ambiente ”favorável ao crescimento”.

Discordo. O fio do novelo deve ir até o fim, doa a quem doer, atingindo lideranças políticas e econômicas, de todos os partidos envolvidos e não apenas em um ou outro. E chegando ao Judiciário, se possível.

Momentos como este, mais do que uma catarse coletiva ou um show de pirotecnia, devem servir para darmos saltos como sociedade. A suruba institucionalizada do poder público com a iniciativa privada tem comprometido a qualidade de vida de milhões de brasileiros. E muito além da corrupção.

Por exemplo, na construção civil, a vida em comunidades tradicionais em grandes obras de engenharia (rodovias, ferrovias, hidrelétricas e demais rolo-compressores feitos sem o devido planejamento e consulta pública), a dignidade de trabalhadores envolvidos na construção de casas, apartamentos e centros empresariais (trabalho escravo já foi encontrado no ”Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal, e em obras da CDHU, do governo paulista), isso sem falar no fato de que a construção civil é um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado (você acha que a madeira da floresta vira só mesa de jantar na sala de europeu e não entra na construção do seu prédio? Sabe de nada…)

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A política deveria ser o centro da vida política do país e não um estábulo de interesses pessoais. Mas a roda-viva da terra arrasada agora gira por conta própria.

Uma presidente foi defenestrada. Que se defenestre outro, sem medo, se houver provas. Se a delação de um peixe grande, como Eduardo Cunha, representar o fim do mundo, que venha o meteoro.

Porque só assim o país terá uma chance de encontrar um ambiente favorável ao crescimento, não apenas de sua economia, mas também de sua democracia. Em que todos realmente serão iguais perante à lei, independentemente de sua ideologia ser mais ou menos afinada com o mercado.

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