O triunfo do compadrio: um juiz para chamar de seu

Por Fernando Brito, Tijolaço

Viveremos hoje mais um daqueles nada raros dias em que o Brasil sentirá vergonha de suas instituições.

A sabatina de Alexandre de Moraes  na Comissão de Constituição e Justiça do Senado é um destes espetáculos de hipocrisia que ficará marcado no imenso capítulo de infâmia que se escreve, nestes tempos, na história brasileira.

Não se fala do seu saber jurídico – ainda que manualesco, como se Direito fosse apenas um compêndio onde a realidade social e a complexidade humana devam ser enquadrados como as vítimas do leito de Procusto – nem da inclinação conservadora do indicado.

O que salta aos olhos é a inaptidão moral de um cidadão que – a definição é insuspeitíssima, do Estado de S. Paulo – só as relações de compadrio com o Presidente ilegítimo da República explicavam estar no Ministério e explicam estar na condição de virtual Ministro do Supremo.

O ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, não tem mais condições de permanecer no cargo, se é que algum dia as teve. Seu despreparo para tão importante função já estava claro havia algum tempo, mas o episódio em que ele antecipou a realização de operações da Polícia Federal (PF) no âmbito da Lava Jato, justamente na véspera da prisão do ex-ministro petista Antonio Palocci, teria de servir como gota d’água para sua dispensa, em razão de tão gritante imprudência. Infelizmente, porém, o presidente Michel Temer, sabe-se lá por que razões, preferiu contemporizar, correndo o risco de ter de enfrentar novas crises em razão do comportamento irresponsável de Moraes. (…)

E depois de listar as “obras” de Moraes, o ex-vetusto jornalão paulista aponta as tais razões: “Só velhas relações de compadrio podem explicar como o dono desse desastroso currículo virou ministro da Justiça.”

Tudo é mais grave quando o compadre – e os compadres do compadre – lotam o rol de delatados, investigados e – sabe Deus se serão  um dia – potenciais réus a depender o juiz-compadre, cujo rigor jurídico permite copiar parágrafos e páginas alheios como se seus fossem e cuja noção de decoro bem se ilustra na visita ao Barco do Amor, a nau de má fama onde deu explicações à turma do pudim governamental.

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Hoje, o Senado Federal transmuta-se na chalana Champagne, mas em escala muitíssimo mais  condenável. Afinal, os encontros lá embarcados são da esfera privada e a promiscuidade que se terá na Comissão de Constituição e Justiça é pública, portanto um atentado ao pudor. Ao ponto de estudar-se o providencial “sumiço” de seu presidente, Edison Lobão, para que não se passe o vexame de vermos juiz e réu trocando carícias verbais em público.

Recomenda-se o mesmo cuidado quando da votação no plenário do Senado, para que aquela estátua de Rui Barbosa que o domina, como os frades de pedra, não core ao se ver  convertida na imagem de Nossa Senhora que protegia os estabelecimentos de luz mortiça no passado, chalanas de terra firme.

Alguém explique ao velho Rui que os tempos mudaram e encurtou-se a túnica da deusa da Justiça ao tamanho de um traje de Carnaval.

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