Onda de saques em Vitória deve servir de alerta

Quadrilha invade loja de celulares em Vitória com carro roubado (Foto: Estadão Conteúdo)

por  Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

“A questão social é um caso de polícia” (Washington Luis, presidente da República de 1926 até ser deposto em 1930).

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Oitenta e sete anos depois, a greve dos policiais militares do Espírito Santo, que começou no sábado, quando sete mulheres se postaram diante da porta do quartel da PM em Serra, na região metropolitana, entra nesta quarta-feira em seu quinto dia, deixando um lastro de 85 assassinatos, 270 lojas saqueadas e os capixabas com medo de sair às ruas.

“A população do Espírito Santo vive praticamente em cárcere privado”, advertiu o governador interino Cesar Colnago, logo cedo, ao fazer um apelo dramático para o governo federal mandar mais tropas para o Estado.

Já foram enviados desde segunda-feira mais de 1.500 homens das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança, mas a onda de violência continua fora de controle, com boa parte do comércio, das escolas e dos postos de saúde fechados, e os ônibus parados.

Convocado pelas redes sociais, o movimento das “Marias”, como se autodenominam as mulheres dos PMs acampadas em frente aos quartéis das principais cidades do Espírito Santo, impedindo a saída dos batalhões, é o fato novo na escalada da crise na segurança pública que assola o país desde o começo do ano.

Desta vez, sem a liderança de facções, a revolta escondida saiu das masmorras presidiárias da região Norte-Nordeste e ganhou as ruas do Sudeste, e Brasília se dá conta da gravidade do que está acontecendo.

Os que estão saqueando lojas, atirando a esmo e matando quem encontram pela frente não são grupos organizados, não carregam bandeiras, não defendem nem criticam governos, também não parecem famintos em busca de comida, apenas aproveitam o clima de terra de ninguém.

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É o velho espírito de manada no estouro da boiada.

Este é o maior desafio para as autoridades responsáveis pela ordem pública, em todos os níveis: não há interlocutores nesta guerra entre as tropas federais e as levas de vândalos enlouquecidos que derrubam as portas de lojas de eletrodomésticos e artigos eletrônicos, carregando em triunfo os produtos do butim.

Amanhã ou depois, as suas mulheres podem sair da frente dos quartéis e os PMs voltarem ao trabalho, tendo algumas das suas reivindicações atendidas, mas o problema continua lá, escondido, silencioso, um sentimento difuso baseado no popular “se não tem lei, pode tudo”, à espera da próxima oportunidade para atacar.

Com certeza, estes revoltados com tudo e com todos não vivem só no Espírito Santo, no rastro do clima de salve-se quem puder que domina Brasília, em que até a Constituição é flexibilizada.

Se eles podem, por que eu também não posso?, devem-se perguntar os saqueadores que transformaram Vitória numa ilha deserta.

Por isso mesmo, no Rio, o governador Pezão e o comando da PM já fizeram um apelo aos policiais para que não aconteça o mesmo naquele Estado quebrado depois de tanta bandalheira. Grupos já tinham a convocar pelas redes sociais parentes de policiais militares para uma mobilização na sexta-feira.

Se esta onda se espalhar pelo país, não haverá tropas federais para dar conta de todos os apelos de governadores sem dinheiro em caixa para pagar salários, muito menos aumentos.

Perto do fim do ano passado, em almoço com um importante líder de movimentos sociais em São Paulo, bem que ele havia me alertado para o perigo de uma explosão social deste tipo, diante do crescente aumento do número de desempregados sem perspectivas de voltar a trabalhar tão cedo. “E não vamos ser nós”, acrescentou.

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A onda de saques e assassinatos no Espírito Santo deve servir de alerta geral para que alguma coisa urgente seja feita antes que a situação saia de controle no resto do país.

Enquanto ficam discutindo em Brasília quem vai ser o novo ministro da Justiça ( e agora também da Segurança Pública), no Brasil real cada vez mais gente está perdendo a paciência, a esperança e a confiança nas instituições.

Este é o perigo.

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