Os milagres do povo

por Fernando Brito, Tijolaço

A capa da Istoé não é uma estupidez para com Lula, é apenas uma manifestação da incapacidade de certo tipo de prestadores de serviço das classes dominantes de compreenderem os sentimentos do povo brasileiro, pelo simples fato de que é muito difícil compreender aqueles a quem não se ama, como faz Caetano Veloso:

“Quem é ateu e viu milagres como eu/Sabe que os deuses sem Deus/Não cessam de brotar, nem cansam de esperar/E o coração que é soberano e que é senhor/Não cabe na escravidão, não cabe no seu não/Não cabe em si de tanto sim”

Sim, há uma limitação, tanto que lêem a poesia como um simples arranjo de palavras, mas  não compreendem que o amor do povão por Lula é, afinal, o amor por si mesmo, por seus sonhos, por seus  direitos, por sua própria condição humana e pela percepção, quase institiva, de que, sendo maioria, não pode ser deixada fora da sala, fora da mesa, fora de casa.

Não compreendem, também, que alguém possa ser diferente deles, para os quem as pessoas não têm significados, mas serventias e que, tão logo a deixem de ter, devam ser descartadas como lixo: Aécio, Temer, como Collor antes e, quem sabe, Bolsonaro depois.

Confirmam, ao senso contrário, o que disse Lula sobre não ser mais um simples homem, mas uma ideia, porque é à ideia que odeiam, como é a ideia, mais que o homem, que está sendo martirizada.

“E o povo negro entendeu que o grande vencedor/Se ergue além da dor”

Todos, inclusive os que não embarcaram na onda de ódio, estão preocupados apenas com a política como, na sua visão, ela deveria ser: uma busca de sucessos e arranjos de interesses e, neste momento, de interesses eleitorais. E, claro, como bons pequeno-burgueses que somos, sempre dando muita importância ao comedimento do “politicamente correto”, que repele a paixão.

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Eles são frios como mortos, pois à morte servem, e sabidos como só os muito tolos sabem ser.

E nós, tolos como a sabedoria popular nos ensina a ser:

Foi o negro que viu a crueldade bem de frente/E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

Ainda acreditamos na prevalência do convívio humano, da igualdade essencial, da felicidade coletiva, porque isso se chama civilização.

E que isso vencerá o fanatismo de quem tem um ídolo reluzente, mas sem rosto e sem humanidade, que nunca fere a lei do dinheiro, da vantagem, da locupletação: seu deus-mercado, senhor de todas as coisas e de todos os homens.

Os milagres do povo, para eles, são incompreensíveis.

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