Os subcapitalistas e o selvagem

por Fernando Brito, Tijolaço

Jair Bolsonaro foi a estrela de um evento de elite do mercado financeiro, ontem, em São Paulo, conta Igor Gielow, da Folha, “no  19ª CEO Conference, encontro de banqueiros, investidores e correlatos  (não sei o que seriam correlatos – especuladores, talvez – , mas vá lá) organizado pelo banco BTG Pactual”.

Segundo os promotores, não era um convescote, mas “o maior evento do mercado financeiro da América Latina” onde seriam ouvidos ” especialistas das mais variadas áreas do conhecimento”. É claro que o press release teve o pudor de não listar o ex-capitão dentre eles.

Não obstante, mereceu aplausos de pé, tietagem e “selfies”.

O relato da matéria deixa claro o que disse para merecer este tratamento: nada.

Segundo presentes no almoço, que foi fechado para a imprensa, Bolsonaro foi confrontado com perguntas sobre seu histórico intervencionista, seu desconhecimento de economia, o crescimento do patrimônio de sua família e governabilidade em caso de eleição.
Saiu-se, segundo o relato, com respostas prontas. Defendeu uma pauta econômica híbrida, liberal ao pedir uma reforma da Previdência gradual e estatista ao criticar a presença da China em negócios de mineração.

Bolsonaro não tem importância alguma, exceto uma – essencial: funciona como um catalizador da estupidez e do egoísmo insano do qual a plateia ali depende para viver, e viver muito bem.

A turma da bufunfa ali reunida nem era o “top” do capital, mas a camada de cortesãos que administra os ganhos e só neles pensa, como matilha fiel, que recebe parte dos despojos da caça.

Sabem como ninguém tornarem-se modelos: seus carros, apartamentos, casas de luxo, ternos bem cortados e seus Rolex viram padrões de sucesso e referências para uma classe média que jamais os terá.

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O que esperam de um presidente da República? Justo o que Bolsonaro lhes acena: ordem.

Quem duvidar, ouça o que disse na véspera, um sujeito que apresenta o tal “Pânico”, na Jovem (?) Pan, dando palco ao mesmo Bolsonaro: “Nação, que Nação? Isso é papo furado. O que todo mundo quer é ter seu empreguinho, sair de casa, tomar o ônibus e ganhar seu dinheirinho”.

O “empresariado brasileiro” reduziu-se a isso, trocando-se o ônibus por um Audi e o dinheirinho por um dinheirão, além de “frequentar” e viajar a Miami e ao Caribe, com algumas passagens por Paris, para deslustrar a cidade-luz  com seus espetáculos de guardanapo.

Ao contrário dos capitalistas norte-americanos do final do século 19, não aspiram a enriquecer muito na construção de um país gigante, basta-lhes a fruição das riquezas de uma colônia.

Nação, pátria, estes conceitos ultrapassados, servem apenas para manipular os idiotas, temerosos de uma invasão venezuelana ou de capitais chineses, tão famintos quanto quaisquer outros, mas “comunistas” e de olhinhos puxados.

Odeiam quem nos enxerga como país com aspirações e destino próprios, ainda mais quando isso é simbolizado por um gabiru nordestino, ao qual bajularam nos anos de poder – verdade que com certo asco – e vislumbram, agora, a oportunidade de soterrar.

A corte sempre ansia por um capitão que controle os selvagens, mesmo que para isso tenha, de público, que portar-se como um.

O Bolsonaro que ruge contra os frutos da pobreza que a injustiça e a insânia criaram, ronrona  ante os ratos gordos, prometendo-lhes “segurança pública e valores”.

Os refinados, juízes e mídia, já lhes deram as leis. O bronco lhes promete o tacape.

O homem primata, guardião do capitalismo selvagem.

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