Pior crime de Cunha foi colocar Temer no poder

por Eduardo Guimarães, Blog da Cidadania

Nesta quinta-feira, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi condenado a 15 anos e 4 meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Segundo a sentença condenatória, ele deverá cumprir a pena em regime fechado.

Cunha foi o condutor do golpe de 2016, que tirou Dilma Rousseff do poder. Todavia, para muito além da roubalheira que, em tese, o manteria fora de circulação por uma década e meia, os piores crimes que ele cometeu não foram os alegados na sentença condenatória.

A situação dramática em que o país está se deve a estratagemas do ex-presidente da Câmara com vistas a derrubar Dilma Rousseff inviabilizando seu governo ao impor despesas que ficaram conhecidas como “pautas-bomba” e impedindo que o Congresso votasse medidas para evitar a crise.

Porém, o que desencadeou o processo de sabotagem do país foi a decisão de Dilma e do PT de não proteger um gangster cujos crimes – ou uma modesta parte deles – estão descritos na sentença que o condenou à prisão.

Cunha nunca será julgado pelos crimes mais graves que cometeu. Quais sejam, tirar do poder uma governante séria e instalar uma quadrilha no lugar dela.

O Brasil terá que se contentar, “apenas”, com a punição de Cunha pelos crimes tipificados no Código Penal e terá que se conformar com a impunidade dele pelos seus terríveis  crimes políticos.

Porém, o Brasil ainda tem que punir a quadrilha de Cunha, ou seja, aqueles que ele colocou na Presidência da República e no resto do governo Federal.

Infelizmente ou felizmente – dependendo da crença de cada um na “democracia” que nos resta –, o único juiz que poderá expedir uma sentença expurgando os golpistas e elegendo a democracia será o juiz povo, que, suspeita-se, já começa a acordar.

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Há uma análise sendo feita sobre a sentença de Cunha que  merece avaliação pública.

Um observador minimamente atento deve se perguntar: se Cunha tinha uma ficha corrida dessas (olhe a página 105 da sentença), que já era conhecida à época dos fatos, como é que presidia a Câmara dos Deputados e como é que liderou, foi peça-chave, no encaminhamento da abertura de um processo fraudulento de impeachment contra uma mandatária eleita pelo povo?

A segunda, relacionada diretamente à primeira, é que, na decisão, Moro faz um elogio (está na página 108 da sentença) à coragem do ministro Teori Zavascky de afastar cautelarmente Eduardo Cunha da presidência da Câmara.

O afastamento de Cunha pelo Supremo ocorreu somente no dia 5 de maio de 2016, quando o pedido de impedimento já estava sendo analisado pela comissão especial do Senado. Ou seja, a decisão do Supremo só ocorreu quando Cunha já era carta fora do baralho e não mais servia aos interesses escusos dos que tramavam a usurpação do poder.

Teori Zavascki era, de fato, um homem probo, que merece elogios. Mas, para o bem da História e pelo compromisso com os fatos, é necessário chamar a atenção para esse ponto que, é claro, foi ignorado na sentença do Moro.

Um último e importante detalhe: o afastamento de Cunha ocorreu no julgamento de uma ação cautelar. Esse tipo de ação, por sua natureza, requer o conhecimento e decisão rápidos.

O MPF havia pedido o afastamento de Cunha em dezembro de 2015 (a autuação da demanda no Supremo é datada de 16/12/2015), alegando que sua permanência na presidência da Câmara representava risco para as investigações e para a institucionalidade do País, uma vez que o então deputado era o terceiro na linha de sucessão presidencial. Mas o STF levou cinco meses para decidir.

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Tirem suas próprias conclusões.

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