Povo deixa Temer por um fio na presidência

por Paulo Moreira Leite, Brasil 247

Com pelo menos 100 000 pessoas nas ruas, o protesto de Brasília confirmou a grande novidade da conjuntura política.

Numa sequencia de manifestações  cada vez mais amplas desde os protestos “Fora Temer!” que marcaram o Carnaval, o povo assumiu seu lugar na definição dos destinos do país. O Brasil se encontra naquela situação clássica que antecipa grandes mudanças – aquela em que nem os de cima nem os debaixo conseguem viver como antes.

Ninguém precisa se enganar: a relação de forças na sociedade se modificou, os diques de contenção explodiram   e a questão do momento é permitir que a vontade da base possa se expressar no poder político.

Isso quer dizer que entramos num período no qual as grandes questões colocadas pelas ruas – Diretas-Já e o fim das Reformas – entraram na ordem do dia das conversas políticas e da luta popular e, de uma forma ou de outra, terão de ser respondidas com urgência.

O governo Temer está suspenso por um fio, como uma fruta podre que pode cair da árvore a qualquer momento. O ensaio mais recente de sobrevivência – a quartelada de Brasília – foi suspenso quando se verificou que ameaçava se transformar numa nova demonstração de fraqueza. Não só era amplamente denunciado pelo mundo jurídico e político, mas  rejeitado pelos comandantes militares, pelo governador do Distrito Federal. Transformado em bode expiatório de uma trapalhada anti-democrática,  próprio Rodrigo Maia, fez questão de esclarecer que nada tinha a ver com aquilo.

Na medida em que fica claro que Temer não possui  argumentos em defesa de sua inocência, e só está preocupado em fugir das investigações e salvar a própria ele, sem nenhuma causa maior a justificar a permanência no Planalto, um governo que nasceu sem legitimidade submerge na falta de autoridade.

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Pode reaparecer em vídeos que ninguém precisa ser presidente da República para gravar. Pode articular manobras para ganhar tempo e prolongar a própria agonia, sem que seja possível enxergar alguma perspectiva de salvação a não ser aquilo que lhe interessa de fato: um acordo de cúpula para evitar a prisão quando perder a imunidade.

Num sintoma da gravidade da situação,  o Planalto perdeu a voz de comando para dar ordens às Forças Armadas e também para os gabinetes que contam na máquina do Estado. Ao dizer que poderia permanecer em seus lugares em caso de queda presidencial, a equipe econômica deu a demonstração definitiva do ambiente de cada um por si e o mercado para todos.

Alimentada pela indignação dos brasileiros, que parte de fatias cada mais profundas da nossa geologia social, a fraqueza política de Temer está na origem das traições e delações que crescem dia após dia, sem perspectiva de que o Planalto tenha qualquer tipo de instrumento eficaz para conter a debandada.

Se a trama central do enredo parece resolvida, do ponto de vista técnico, resta uma questão para os patrões do golpismo de coalizão. A rigor, é  a mesma de sempre, com o detalhe de que se tornou cada vez mais urgente: como impedir que sua queda  seja empregada pela população para enterrar o projeto de reformas e restaurar a democracia através de Diretas-Já. Esta é a virada que interessa, a conquista que já se enxerga – em imagens pouco nítidas, ainda – no horizonte.

Com lideranças tradicionais em fuga há mais tempo, o que restou do PSDB serve de escora ao governo na esperança de garantir alguns restos do banquete em seu prato.

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A matemática está clara.

Quanto mais Temer for mantido em seu cargo, maiores serão as mobilizações que exigem sua queda. Menor será a musculatura capaz de cometer crimes sociais como a reforma trabalhista e a destruição da Previdência. Mais desmoralizados ficarão aqueles que permanecerem a seu lado.

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