Povo nas ruas e jantar do poder: para onde vamos?

Bruno faz selfies e é festejado pelos torcedores do Boa (Foto: Wherter Santana/Estadão Conteúdo)

por  Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho –

15 de março de 2017: a quarta-feira começou com protestos contra o governo, que atravessaram o dia todo nas ruas de 19 Estados, e terminou com um jantar oferecido por Gilmar Mendes à cúpula do poder, em Brasília.

Se daqui a um século os historiadores do futuro quiserem contar como era a nossa época poderão utilizar estas duas cenas para fazer um resumo da ópera.

* Por todo o país, desde cedo, centenas de milhares de pessoas fazem manifestações contra as propostas das reformas previdenciária e trabalhista aos gritos de “Fora Temer!”.

* Em Brasília, o superministro Gilmar Mendes recebe o presidente Michel Temer e outras altas autoridades para um jantar de gala em homenagem ao aniversariante José Serra.

Foi um dia comum no Brasil de 2017, com novos vazamentos da Lista de Janot: o poder de um lado, comemorando, e o povo do lado oposto, protestando, cada vez mais distantes um do outro.

Em algum momento, estes dois mundos que habitam o mesmo país vão ter que se encontrar frente a frente.

Para completar o quadro, podem incluir também fotos de jovens fazendo selfies e festejando o goleiro Bruno, aquele que matou a amante e escondeu o corpo.

É um perfeito retrato dos tempos que vivemos, quando o mesmo Judiciário emponderado que manda soltar o assassino vai julgar os comensais do jantar brasiliense investigados pela Lava Jato.

Confesso que fiquei surpreendido com a dimensão das manifestações de protesto, especialmente no Rio e em São Paulo (ver noticiário aqui no R7), diante do clima de anomia social em que vivemos e do desencanto generalizado na sociedade.

Só tive ideia do que estava acontecendo no meio da tarde quando tentei ir ao médico e não consegui chegar à praça Oswaldo Cruz, com o trânsito todo parado e as pessoas correndo com faixas e bandeiras para protestar na avenida Paulista.

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Há tempos não via pessoas tão animadas em São Paulo e, pelo jeito, no resto do país, embora desta vez a cobertura das manifestações tenha sido bastante tímida, diria quase envergonhada.

Nem dá para saber quantos eram os manifestantes nas ruas porque a PM e o Datafolha não divulgaram números, ao contrário do que fizeram em manifestações anteriores.

Nos cálculos dos organizadores da CUT e de outros movimentos sindicais e sociais, havia 250 mil pessoas na Paulista.

Em seu discurso de apenas oito minutos, o ex-presidente Lula afirmou que “está ficando cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi apenas contra a Dilma, contra os partidos de esquerda, mas também para acabar com as conquistas da classe trabalhadora”.

No relato da Folha, tinha de tudo na avenida: sindicalistas, anarquistas, professores, estudantes, representantes de movimentos sociais, organizações de defesa de direitos LGBT e partidos de esquerda, pedindo a saída do presidente Michel Temer e a convocação de eleições diretas.

Já vi este filme de perto outras vezes, mas desta vez nem consegui chegar ao cinema das ruas. Como disse o Lula outro dia, o tempo passa, a natureza é implacável.

Ao final do dia, ficou uma pergunta martelando na minha cabeça: para onde vamos?

***

Quase 70

Aproveito este espaço para agradecer a todos os amigos e leitores que escreveram e ligaram para me cumprimentar pelo aniversário.

Fica faltando apenas um ano para chegar aos 70, ainda batalhando no jornalismo diário. Parece milagre…

Vida que segue.

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