Se réu não pode, quem poderia ser presidente?

A Praça dos Três Poderes coberta por nuvens escuras (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr).

Por Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

A seguir nesta trilha, estamos caminhando celeremente para um engavetamento institucional dos poderes em Brasília, de proporções imprevisíveis.

O Supremo Tribunal Federal, sempre ele, deve finalmente decidir nesta quarta-feira uma questão crucial que vem se arrastando desde o ano passado: se réus podem ou não assumir a Presidência da República em caso de impedimento do titular.

Vejam como está a situação às vésperas das eleições dos novos presidentes da Câmara e do Senado marcadas para esta semana:

* Na Câmara, apesar da reviravolta dos últimos dias, Rodrigo Maia, candidato à reeleição apoiado por dez partidos, continua favorito. Maia é o “Botafogo” na lista de delatados da Odebrecht, que pode ter o sigilo quebrado nos próximos dias.

* No Senado, Eunício Oliveira é praticamente candidato único à sucessão de Renan Calheiros.  Eunício é o “Índio” na mesma lista.

Como não temos vice-presidente, Maia e Eunício, nesta ordem, são os primeiros na linha sucessória.

Se os dois ficarem impedidos de assumir, a depender dos desdobramentos da Lava Jato após a mega-delação dos 77 executivos da Odebrecht, quem sobra?

Bingo: a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, ficha limpíssima, terceira na linha sucessória, nas mãos de quem estão as decisões mais importantes do País neste momento.

Qualquer que seja o desfecho deste imbroglio inimaginável, o simples fato de podermos ter sub-judice os presidentes da República (o “MT” na lista da empreiteira), da Câmara e do Senado, já mostra a fragilidade do nosso sistema político.

Longe de mim imaginar que Carmem Lúcia tenha qualquer interesse pessoal num desfecho dramático que a leve a assumir este abacaxi, mas isto pode acontecer.

Leia::  Greves não são sem sentido e talvez sinalizem abertura de nova fase

Neste caso extremo, só lhe restaria convocar eleições gerais imediatas para a Presidência da República e o Congresso, algo que parecia inimaginável até pouco tempo atrás, mas que agora já não é impossível, se não houver outra saída.

Para se ter uma ideia do clima de barata-voa e salve-se-quem-puder em Brasília, já tem gente no governo achando melhor que o sigilo das delações seja quebrado de uma vez, como mostra a reportagem “Após homologação, Planalto revela ansiedade com impacto das delações da Odebrecht”, publicada em O Globo desta terça-feira.

“Vazamento seletivo é roleta russa, você nunca sabe quem vai ser atingido. Isso deixa o governo sangrando, atrapalha a economia do país e a agenda de votações _ diz um assessor presidencial”.

Segundo o jornal, “o presidente tem dito internamente que gostaria que todas as acusações viessem à tona de uma vez para fazer rapidamente as mudanças necessárias na Esplanada e no Planalto para, então, tocar o governo”.

A bola agora está com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que deve pedir a quebra do sigilo das delações ao novo relator da Lava Jato a ser indicado pelo STF, provavelmente por sorteio.

Ou seja, chegamos a um ponto em que tudo vai depender da sorte (ou do azar) na roleta do STF que vai definir o destino da Lava Jato e da elite política do país _ e de todos nós.

Apertem os cintos.

E seja o que Deus quiser.

Vida que segue.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *