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Ser mãe deveria ser escolha, não imposição

Amanheceu o dia do meu 37º aniversário. Lavei o rosto e o sono, tomei o café da manhã e saí para mais um dia comum. Enquanto dirigia, ultrapassava carros que carregavam crianças; logo imaginei que estavam sendo levadas pra escola. Crianças. Esta palavra trouxe à minha memória uma recente visita de rotina ao ginecologista: “você já pensou em congelar os óvulos?”, ele falou.

Naquele dia, após sair do consultório médico, o mundo tinha mudado. Até então, minhas principais preocupações naquela sexta-feira comum eram atingir a meta no serviço, pagar a parcela do financiamento da casa, treinar na academia e, mais tarde, tomar cerveja com os amigos no bar do momento. Meu estômago se revirou e minhas certezas tornaram-se incertas: “Desejo ter filhos? Congelar os óvulos? Quanto custa isso?”.

O carro de trás buzinou porque não vi o farol ficar verde. Foi quando percebi que estava chorando. Não sei se era porque relembrei relacionamentos que não deram certo ou por me sentir cobrada (pela sociedade ou sei lá por quem) por algo que não estava ao meu alcance naquele momento. Então, um sentimento de frustração adentrou meu coração enquanto as palavras do ginecologista ecoavam em minha cabeça.

Lembrei-me de três amigas que passaram por algo parecido. A primeira delas viveu momentos de angústia quando realizou o congelamento dos óvulos (ela queria ser mãe, mas tinha se divorciado recentemente). A segunda, solteira, fez empréstimo no banco para pagar o procedimento (focada na carreira profissional, não queria ficar se preocupando se desejaria ter filhos no futuro). A última delas, já beirando os 40, estava tranquila por ter optado pelo não congelamento dos óvulos alguns anos antes.

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O médico Drauzio Varella escreveu uma crônica intitulada “A Maternidade não é Obrigação” em que ele lança as seguintes questões: “Será que todas as mulheres sempre quiseram mesmo ser mães? O instinto materno é de fato algo intrínseco a nós a ponto de não podermos abrir mão dos filhos?”.

Ser mãe não é tão fácil quanto as histórias felizes descrevem. É claro que há alegria e carinho envolvidos, mas a mulher tem que abdicar da própria liberdade para cuidar de outro ser, e nem toda mulher está preparada para isso. Nos dias de hoje (em que as mulheres buscam cada vez mais sua independência pessoal e financeira), mais mulheres estão assumindo sem medo que não desejam encarar essa tarefa de ser mães. “Filho pode ser maravilhoso, mas verdade seja dita: quem os tem nunca mais será completamente livre.”

Não é egoísmo deixar de ter um filho para ter uma vida mais disponível para si mesma; egoísta é a mulher que não deseja ser mãe e mesmo assim engravida, gerando uma vida que não terá toda a atenção e dedicação que merece (ou seja, crianças que acabam sendo criadas por babás e que recebem afeto materno somente nas horas vagas).

Ser mãe tem que ser escolha, não imposição. Até porque não são todas as mulheres que encontram a tão sonhada plenitude na maternidade. Por isso é mito dizer que uma mulher somente se sentirá completa quando ela tiver um filho. A mulher é realmente feliz quando é livre para fazer suas próprias escolhas — mesmo quando ela sabe que pode estar abdicando do maior e mais sincero amor do mundo: o amor incondicional por um filho.

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Eu, minhas amigas e tantas outras mulheres dispomos da opção de termos óvulos congelados, mas também podemos escolher pelo não congelamento deles. E para nos livrarmos de qualquer culpa imposta pela sociedade, só precisamos viver o nosso momento atual com mais leveza e menos cobrança. Assim, o futuro poderá chegar espontaneamente: seja com um filho natural após os 40, com um filho adotivo, com um filho gerado pela fertilização in vitro ou sem filho nenhum.

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