Shirley Hazzard sugere, em romance notável, que acaso decide a vida das pessoas

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Como em certos romances de Henry James, “O Trânsito de Vênus” exibe personagens ambivalentes, limítrofes entre o bem e o mal, mas a leveza da australiana a diferencia do autor de “A Taça de Ouro”

por Euler de França Belém, Revista Bula

“O Trânsito de Vênus” (Companhia das Le­tras, 476 páginas, tradução de Sonia Coutinho), da escritora australiana Shirley Hazzard (1931-2016), é uma obra-prima — dessas que, se ficar atento apenas às modas, o leitor deixa passar batido. O romance parece despretensioso e, aqui e ali, é mesmo parecido com algumas das ficções do americano Henry James, como “A Taça de Ouro”, “As Asas da Pomba” e “Retrato de uma Senhora”, sobretudo na questão da trama intrincada, com pistas plantadas (às vezes, de maneira enganadora; uma delas sobre o suicídio de Ted Tice. O leitor precisa ficar atento à ideia de vidas entrelaçadas, por exemplo as de Paul Ivory, Ted Tice e Caro Bell) para iluminar mas que, no geral, confundem e, até, iludem o leitor. Outra aproximação é a ambiguidade das personagens — nem sempre inteiramente boas, nem sempre inteiramente más; entretanto, sempre complexas, flertando com várias possibilidades. Há personagens que são boas, querem fazer o bem, mas submetem-se às pressões do mal, ainda que não sucumbam e não sejam totalmente omissas. “A verdade tem vida própria” — é o que se diz. “Nossos melhores instintos não são mais confiáveis do que a lei, nem mais consistentes. Quando vivemos essencialmente dentro da sociedade, há ocasiões em que preferimos depender da fórmula social — e descobrimos que, de alguma forma, arruinamos a possibilidade de agir conforme nosso próprio juízo. Nós nos desqualificamos por julgar os outros segundo as regras sociais”, anota Ted Tice, uma das vítimas da história, se se pode dizer assim — talvez não seja possível, porque, no romance, os indivíduos são sujeitos (mais do que seres passivos) de seus sucessos e desgraças. Como Henry James, Shirley Hazzard tem um olho clínico para os detalhes, realçando como uma roupa ou uma caneta diferentes, “novas”, começam a mudar o tempo, a moldar um novo tempo.

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O que diferencia os dois autores é a leveza de Shirley Hazzard, que conta histórias terríveis, de um trágico exacerbado (as cenas sobre relações sexuais são imaginativas. O erotismo corre e escorre pelas palavras e frases, sem excessos, o que não é o mesmo que pura contenção ou moralismo disfarçado — é refinamento da linguagem. Ted Tice sublinha: “Beleza é a palavra proibida de nosso tempo, como sexo era para os vitorianos. Mas sem o mesmo poder de se reafirmar”), como se estivesse apenas expondo, sem condenar personagens. É provável que, como Machado de Assis, deixe os julgamentos, sobretudo os morais, para os leitores, até para que se sintam responsáveis por alguma coisa. O dramaturgo Paul Ivory é um grande personagem — ao estilo de Raskólnikov, de Fiódor Dostoiévski —, de caráter maligno e superficial (nos relacionamentos), mas cativante. Porém, a história não o põe na porta de uma delegacia ou à frente de um juiz. A doença de um filho talvez seja a única condenação. Se é.

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