Temer e o fim do autoengano. Por Fernando Nogueira da Costa

por Fernando Brito, Tijolaço

Mais cedo, escrevi aqui sobre a queda nos investimentos comprometer as possibilidade futuras de crescimento da economia brasileira. Ainda não tinha visto os comentários do professor Fernando Nogueira da Costa, em seu blog, sobre reportagem do Valor que dá números precisos a esta paralisia, que é pior do que a estagnação presente, porque se projeta para o futuro.

E que desmente a historinha da retomada, que só ocorre, volta e meia, por esgares, porque a ociosidade e a depressão do consumo fazem com que qualquer pequena circunstância iluda (a quem quiser se iludir) sobre o Brasil ter “voltado aos trilhos”.

Transcrevo trechos da publicação do professor da Unicamp.

“Sergio Lamucci , no jornal Valor da sexta-feira, 16, avalia que a nova crise política aumentou as chances de o investimento encolher pelo quarto ano consecutivo. Com as incertezas causadas pelas dúvidas quanto à continuidade do governo do golpista Michel Temer, a confiança dos empresários deve ser afetada, prejudicando as perspectivas para a retomada da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação.

Nesse cenário de indefinição, algumas instituições reduziram as projeções para o investimento em 2017, passando a projetar uma nova queda para o componente da demanda que mais apanhou nos últimos anos. Para se ter uma ideia, a FBCF recuou nada menos que 29,8% em relação ao nível do terceiro trimestre de 2013.

Na série do IBGE das contas nacionais que se inicia em 1996, não há registro de uma queda remotamente parecida. A FBCF encolheu quase 20% no quarto trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009, na esteira da crise financeira global, mas logo se recuperou – nos últimos três meses de 2009, já havia superado o nível vigente no terceiro trimestre de 2008.

A Tendências Consultoria passou a apostar em retração de 1,1% na FBCF neste ano — antes, previa uma alta de 2%! Além do impacto do Efeito Temer, o péssimo resultado do investimento no primeiro trimestre contribuiu para o corte na estimativa.

Nos três primeiros meses do ano, a FBCF recuou 1,6% em relação aos três meses anteriores, feito o ajuste sazonal, desempenho pior do que o esperado por boa parte do mercado – a média das estimativas dos economistas ouvidos pelo Valor Data era de uma baixa de 0,3%. Nos últimos 14 trimestres, a FBCF caiu em 13. A exceção foi o segundo trimestre do ano passado, quando houve alta de 0,1%.

As dúvidas quanto ao encaminhamento das reformas no Congresso e a manutenção da atual agenda econômica devem impactar negativamente a confiança dos empresários e, portanto, a expectativa de bom cenário para investimentos. O Mercado Onisciente, Onipotente e Onipresente ficou amuado ao falar do impacto causado pela divulgação da gravação de uma conversa comprometedora de Temer com o empresário Joesley Batista, da JBS.

Além disso, há potenciais impactos no custo de financiamento, por causa do aumento dos prêmios de risco, diz ele, para quem esses fatores tendem a fazer com que os investidores coloquem “novos projetos em compasso de espera”.(…)

A queda da FBCF fez a taxa de investimento encolher brutalmente nos últimos anos. No primeiro trimestre, ela ficou em 15,6% do PIB, mais de cinco pontos percentuais do PIB abaixo dos 20,7% do PIB registrados no mesmo período de 2014. É um número mais baixo do que o de muitos países emergentes. No ano passado, a taxa ficou em 19,5% do PIB na África do Sul, em 21,6% do PIB no Chile, em 25,6% na Rússia, em 31,4% do PIB na Índia e em 44% do PIB na China, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).”

Leia::  Eles não desistem: vem aí a “Operação Anistia”

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *