Terceirização: da Princesa Isabel ao MT

O nome que vai para a vala negra

por Paulo Henrique Amorim, Conversa Afiada

Caríssimo MT ou Treme:

Permita-me recordar alguns relevantes fatos sobre a promulgação da Lei Áurea, a que meu nome se associou de forma indelével na memória do sofrido povo brasileiro.

Quem não queria a libertação dos escravos era a camada mais retrógrada dos proprietaários rurais.

A ponto de seu líder, Andrade Figueira, não ser nem fazendeiro e não ter escravos.

Lembra um tal de Paulo Skaf, da FIE P, que não tem indústria nem operários.

A parte mais dinâmica dos fazendeiros percebeu que o trabalhador assalariado gerava mais riqueza do que ter escravos.

Na última hora, o Conselheiro Paulino de Souza tentou interromper o movimento irrefreável com uma proposta no Senado que atrasaria ainda mais a libertação.

Como se sabe, meu saudoso pai, D. Pedro II, se orgulhava de ter mantido a mais longa e extensa Escravidão da História.

Os tempos mudaram.

Em apenas cinco dias e por nove décimos de cada uma das duas Câmaras pude assinar a Lei Áurea!

Hoje, leio no PiG que o Senhor aprovou na Câmara dos Deputados a revogação da Lei Áurea.

Por 231 votos contra 43 (por tão pouco, MT!), a sua Câmara desengavetou uma Lei do tempo do Fernando Henrique Cardoso (essa reencarnação do Conselheiro Paulino Souza) e estabeleceu:

• a terceirização de todas as atividades empresariais, seja atividade fim ou meio;

• a empresa não precisará garantir condições de higiene e segurança, como era nas senzalas de meu tempo;

• a empresa não precisa alimentar os escravos, como era na senzala de meu tempo;

• se o escravo resolver protestar na Justiça – se é que existe! -, a empresa não poderá ser responsabilizada mas, sim, a que tiver contratado o escravo.

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A História se repete como farsa, MT, dizia um excêntrico alemão do meu tempo.

Quem quer a terceirização é a camada mais retrógrada do empresariado.

Porque os mais dinâmicos aprenderam com Henry Ford – um nazista americano do início do século passado: é preciso remunerar bem os proletários, para que possam consumir os produtos que produzem!

Escravo não tem dinheiro para comprar automóvel.
Só se matar o senhor do engenho e lhe roubar o BMW!

O seu breve Governo já cometeu muitos estupros.

Mas, por favor, deixe imaculada a estátua que ergueram em minha hiomenagem, na Praia do Leme, perto da Avenida Princesa Isabel, no Rio.

Desse jeito, o seu nome vai se misturar à vala negra, que, às vezes, sai dali de frente, em direção ao Oceano Atlântico.

Assinado,
Princesa Isabel

Em tempo: o ansioso blogueiro consultou “História da Civilização Brasileira“, de Sérgio Buarque de Holanda, Vol VII, Livro Quinto, Capítulo I, “Resistência às reformas”. Editora Difel, 1977.

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